AMAR JESUS NOS IRMÃOS: O QUARTO GRAU DO AMOR

“Quem acolhe a um destes pequeninos é a mim que acolhe.” (Mc 9,37)

Esta Palavra nos convida a dar mais um passo no caminho do amor: eu posso amar o irmão como amo Jesus, reconhecendo Jesus no irmão!

No início da Aliança de Misericórdia, fomos visitar os mendigos na praça da Sé, em São Paulo. Estávamos um pouquinho angustiados porque não sabíamos se realmente era da vontade de Jesus começar esta Obra.

Nos aproximamos de um senhor bêbado, falamos com ele e rezamos. Ele, a certo ponto, ia embora, mas logo parou, nos olhou, e, com ar seguro e decidido, nos disse: “Vocês estão se perguntando se devem começar uma comunidade para nos ajudar. Deus quer isso. Vão em paz”. E foi-se embora.

Nós ficamos de boca aberta e choramos. Deus tinha nos falado através deste pequenino.

Quem acolhe a um destes pequeninos é a mim que acolhe.” (Mc 9,37)

Esta Palavra do Evangelho de São Marcos ilumina nossa compreensão sobre o capítulo 25 do Evangelho de Mateus.

Neste trecho do “julgamento final” o Senhor nos diz que no último dia Ele nos revelará que tudo o que fizermos ou deixarmos de fazer a um dos pequeninos famintos, sedentos, presos, nus ou enfermos, na realidade o teremos feito ou deixado de fazer para Ele mesmo.

Esta nossa escolha e atitude perante os pobres determinará então, de fato, a nossa eterna felicidade ou a nossa eterna condenação (cf. Mt 25,31-46).

Vale a pena ler por extenso uma parte deste trecho, para a nossa meditação pessoal: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita:

Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25,34-40).

Nestes versículos logo podemos evidenciar dois elementos: o “Quando” e o “Agora”. O “Quando” fala-nos daquilo que será o nosso encontro com o Rei-Salvador Jesus Cristo no juízo final, no fim do mundo.

O “Agora” descreve o que nós devemos fazer hoje, agora, para sermos proclamados beatos não somente no fim do mundo, mas desde já.

Ainda na luz do inteiro capítulo 25 podemos ressaltar três aspectos essenciais:

  1. Na parábola das “dez virgens” (Mt 25,1-13) entendemos que precisamos adquirir o óleo que permite ver/compreender a Palavra. Somente vivendo a Palavra vamos compreender como amar o outro para viver sempre com o outro. A Palavra é a luz para enxergar o caminho do Céu!
  2. Na parábola dos talentos entendemos que precisamos crescer no dom do amor recebido (cf. Mt 25,14-30). Nunca podemos ser superficiais e relaxados. O amor ao outro deve continuamente crescer. Temos que ser atentos e ativos no amor, pois só o amor permanece. Amar é o melhor investimento da nossa vida!
  3. No trecho do julgamento final aprendemos a amar o Senhor nos irmãos pequeninos e mais necessitados: Mt 25,31-46. No amor constante ao outro encontro totalmente Outro, soberano e eterno!

O julgamento que o Rei irá fazer no “quando” será o mesmo do que o que nós, no “agora”, fazemos ao pobre, ao pequeno. Jesus, o Rei, não irá fazer outra coisa senão aquilo que nós agora determinamos na nossa vida, pelas nossas escolhas.

Para poder entender bem o texto precisamos ter presente que este trecho vem depois dos dois anteriores e logo antes dos capítulos que relatam a paixão.

No caminho da cruz, o “Rei” se apresenta condenado, amarrado, chicoteado, nu e ferido, e é crucificado. Nos mais pequeninos dos irmãos, o cristão vê o seu “Rei”. Neles, de fato, continua a paixão de Cristo pela salvação do mundo! Neles encontramos o próprio Cristo!

Quem acolhe a um destes pequeninos é a mim que acolhe.” (Mc 9,37)

Amando o outro, nós amamos a Deus e nos tornamos já, nesta vida, beatos, bem-aventurados. Eu me realizo como filho vivendo como irmão. Os pobres são os bancários (cf. Mt 25, 27) que permitem dar frutos aos meus talentos.

O Evangelho fala claro. Em cada pequeno do mundo eu encontro o rosto do Salvador. Neles, o Senhor se identifica. Eles, como Jesus, carregam em si mesmos os nossos males. Todos os “pobres cristos” do mundo são Ele, o Crucificado, são os nossos juízes e salvadores. Santa Teresa de Calcutá beijava os Cristos do mundo.

Realizou o “quando” e o “agora”. São Francisco beijou o leproso, Cristo. Amou o “agora” para viver no “quando”, na beatitude eterna. Nós devemos beijar e dar a vida para os pobres e assim beijaremos o Cristo que se apresenta para nós “agora”, hoje.

Um dia tiramos da rua uma criança de quatro anos. Ela se aproximou no dia seguinte e me falou, cheia de alegria e gratidão: “Tio, eu dormi esta noite pela primeira vez numa verdadeira cama limpa. Podemos pegar a Kombi, ir juntos na praça da Sé e tirar todos os meus amiguinhos da rua? É tão lindo viver aqui e eu não estou feliz pensando nas outras crianças sofrendo”.

Esta criança sem tanta teologia já tinha entendido tudo!

Queremos todos tornarmo-nos santos?! Se você quer ser bem-aventurado no fim da vida, ame hoje o Cristo nos pobres que encontra na rua: nos mendigos, nas prostitutas, nos traficantes, nos jovens ou adultos perdidos, sem vida… porque é somente amando o outro que eu amo o Outro-Jesus. Assim eu me torno pessoa, irmão e filho de Deus!

Fiquemos, porém, atentos. O pequenino é pequeno e deseja e precisa ser amado para que ele compreenda, quem sabe, que pode amar, que é capaz de amar.

Muitas vezes você experimentará que este pequeno não responderá ao amor, mas se tornará exigente, cansativo, irresponsável, traidor, caluniador, acusador. Diante desta realidade você deverá responder sempre como Cristo Jesus.

Ele se fez “nada”, e mesmo sabendo que não foi amado, mas acusado, rejeitado, crucificado, ainda assim ama e salva!

A bem-aventurança consiste nisso: aceito o pecador (eu que também sou pecador) e indo além da resposta positiva ou negativa do outro, amo Jesus. Sentindo-me amado por Deus, amo como filho-irmão o meu irmão.

Pe. Antonello Cadeddu

Fundador da Aliança de Misericórdia

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