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Entrevista com os fundadores – 39 anos celebrando a Eucaristia

No dia 12 de abril, padre João Henrique e padre Antonello, fundadores do Movimento Aliança de Misericórdia, celebrarão 39 anos de sacerdócio. Eles foram ordenados juntos, na Diocese de Chioggia (VE).

Ambos são de Cagliari (Sardenha – Itália), mas, pelo chamado de Deus, foi no Brasil que, junto à Maria Paola e outros irmãos, deram início aos trabalhos da Aliança de Misericórdia, no ano de 2000.

Em uma entrevista exclusiva e online, conversamos com eles sobre os desafios do tempo atual, experiências marcantes nesses anos de sacerdócio e como contemplam a Obra de misericórdia que Deus está fazendo no mundo, através do SIM de cada um.

Acompanhe…

 

Pe. Antonello de Jesus Abandonado

…um abandono no Espírito Santo

O nome de consagrado foi um presente de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, com quem o sacerdote teve a chance de, por duas vezes, se comunicar por cartas. Nessas possibilidades, Chiara o presenteou com o nome espiritual e sua Palavra de vida: “Este Evangelho do Reino será anunciado pelo mundo inteiro” (Mt 24,14).

Abandonado ao Espírito Santo, o padre vive seu ministério anunciando o Evangelho pelo mundo a fora, semeando o Carisma da Misericórdia. Atualmente está em Roma, onde consegue acompanhar as missões e membros da Aliança na Europa mais de perto.

E foi de sua casa que ele cedeu a entrevista, com muita simplicidade, carinho e disponibilidade, durante uma tarde da Quarta-feira da Semana Santa. Para quem o conhece, faça a leitura imaginando o seu sotaque italiano ‘abrasileirado’. Uma boa dica para quem quer matar a saudade, enquanto não o vemos presencialmente.

Padre, nesses 39 anos de sacerdócio, qual a maior experiência que o senhor carrega?

Aqui em Roma tem um pequeno grupo de aliança e participa um técnico, muito inteligente, e outro dia eu perguntei a ele: “se fosse fazer um cálculo de quantas missas celebrei nesses 39 anos, quanto seria?”. Ele disse: “mais ou menos umas 14.800 missas” (a expressão e fala do padre foram de admiração e gratidão).

Certamente, a maior experiência é com a Eucaristia. Essa é a coisa mais “poderosa”: poder todos os dias consagrar o pão e o vinho. E um ensinamento é poder entrar sempre mais em intimidade com Deus.

Como sacerdote, como o senhor vive a experiência de ser ponte de misericórdia para tantas pessoas?

Aqui na Europa tem uma falta de Deus que é uma coisa impressionante, a pobreza espiritual é mais evidente. E aqui entra um valor enorme porque, se celebramos bem a Eucaristia e criamos uma participação com eles, e não somente uma escuta passiva, mas o momento da Eucaristia como Deus criou, um banquete, um viver juntos… então, acontecem muitas graças.

Aqui tem uma experiência que eu vivo frequentemente, porque, quando volto na minha cidade, eu celebro uma missa de cura, e meu irmão, que nunca vai à missa, participa. E ele me disse uma vez: “É diferente a sua missa, Antonello. Você me faz participar, me sinto participante quando você celebra”. E isso é muito importante.

Padres durante encontro na Polônia antes da Pandemia

Já faz mais de 1 ano que o senhor está na Europa, padre. Aqui no Brasil, muitas pessoas perguntam pelo senhor nas redes sociais da Aliança, querem saber sua agenda, têm saudades de missas e encontro de espiritualidade com o senhor. Tem data pra voltar?

O que bloqueou muito o meu viajar e ir ao Brasil foi o Covid. Por três vezes marquei a viagem, mas no Brasil, ou as fronteiras estavam fechadas ou a situação não estava boa e achamos melhor não ir. Primeiramente, o problema maior é a pandemia.

Aqui na Europa também tem muita necessidade. Na Polônia, Cagliari… as coisas estão crescendo, precisa também seguir a Europa, né?!

Outro particular é que em setembro, mais ou menos, do ano passado, peguei Covid.

Também tem outra coisa, nos abandonamos ao Espírito Santo e Ele nos manda onde Ele quer.

O senhor é conhecido por muitos como o pregador dos dons do Espírito. Teve alguma experiência marcante com o Espírito Santo que transformou sua vida?

Nove anos depois que fui ordenado padre, eu tive uma experiência muito forte com o Espírito Santo, sem ainda conhecer a RCC. Comecei a cantar em línguas sem saber o que era o ‘canto em língua’. (Durante um encontro de espiritualidade) as pessoas começaram a cair no repouso do Espírito Santo e eu fiquei assustado, tanto que liguei para meu diretor espiritual (lembrou ele com risos)… eu não sabia nada.

Depois de nove anos como padre, posso dizer que minha vida sacerdotal se transformou, porque, com a potência do Espírito Santo é Ele quem age e se diverte em fazer as coisas. É só eu me colocar à disposição dEle, mísero como sou, e Ele faz aquilo que Ele quer.

Quanto ao crescimento da Aliança nesses 21 anos, como o senhor enxerga?

Acredito que a coisa mais linda é ficar “de boca aberta”, maravilhados e louvando a Deus continuamente por tudo que está acontecendo nas missões (Moçambique, Santo Domingo, Venezuela, Polônia, Brasil…).

Ficar “de boca aberta” e fazer a nossa parte, nos abandonando no Espírito Santo, vivendo entre nós a vida Trinitária: comunhão, perdão, escuta, participação… Porque, na medida que passa o tempo, tem sempre nas Obras um grande perigo, de se tornar cada um independente do outro e cuidar somente dos trabalhos que a Comunidade nos dá. Devemos ter um grande cuidado, viver a comunhão. Quando se vive a comunhão, Jesus está no meio de nós e Ele opera maravilhas. Então, ficar “de boca aberta” na frente de tudo que Deus está fazendo.

Estamos em um tempo muito difícil, padre, com medo. O senhor, que já até passou pela experiência de contrair o Covid, poderia deixar uma mensagem?

Queria dizer aquilo que estou falando aqui na Europa, nas comunicações via internet que estou dando. Eu creio que esse Covid está nos ajudando a entender que essa vida passa. E nós, nessas últimas décadas, nos apegamos muito, como humanidade, à capacidade de achar que poderíamos só nós mesmos cuidarmos de nossas coisas, sem olhar para Deus. E foi um desastre como estamos vendo. O Covid nos coloca numa situação para poder ter a clareza que nós devemos pensar na Eternidade. E devemos viver bem o tempo presente, o agora. Aquilo que estou vivendo com você, aquilo que os leitores irão viver no momento que lerem essas palavras. Eu devo viver o presente no amor.

Eu tive o Covid, e em certo ponto é inútil estar lá a brigar com Deus, porque não é Deus a causa, somos nós. É inútil ficarmos chateados ou pessimistas. Precisa viver bem o tempo presente, e considerar que realmente a nossa vida passa, aquilo que permanece é a Eternidade. Só a Eternidade.

Não olhemos tanto aquilo que estamos vivendo. Essa pandemia nos leva a uma atitude de tristeza, medo, sem esperança. Eu creio que todo mundo precisa pensar na Eternidade. Jesus nos abriu as portas da Eternidade e somos chamados a isso, tudo passa. Assim, saberemos viver com mais intensidade e que essa vida é somente uma passagem. Tudo passa, aquilo que vale é sempre olhar para o Alto, à Eternidade.

Agora, como uma curiosidade pessoal, o senhor conheceu Chiara Lubich[i]?

Eu a conheci. Mas nunca falei com ela. Chiara era muito reservada. Eu a escrevi duas cartas, pedindo o nome novo que ela dava àqueles que faziam parte da Obra de Maria. E depois, pedindo a Palavra de vida. E ela me respondeu as duas vezes.

O nome que ela me deu foi: Antonello de Jesus Abandonado. Podia ser um pouco melhor, mas paciência (Com risos e muito bom humor, brincou ele a respeito da espiritualidade que traz).

E a Palavra é: “Este Evangelho do Reino será anunciado pelo mundo inteiro” (Mt 24,14). E realmente, estou “de boca aberta” de ver o que Jesus está realizando. Passando o Covid, espero dizer sempre aquilo que me perguntam: “padre, onde mora?”. Eu digo: “no avião!”. 

Pe. João Henrique

“…ser o coração misericordioso de Cristo no mundo hoje”

 

Padre João Henrique, dentre tantas características, é cheio de energia e apaixonado pelo seu ministério sacerdotal. Pedi a ele para que completasse a frase: Ser padre para mim é… “ser o coração misericordioso de Cristo no mundo hoje”, respondeu ele prontamente.

Nossa entrevista aconteceu na Quinta-feira Santa, ocasião em que, durante a Santa Ceia, Jesus instituiu o Sacerdócio Ministerial.

Atualmente, o padre está morando na cidade de Salto/SP, onde está acompanhando de perto as obras de construção da Cidade Rahamim. De forma leve e descontraída, driblando os problemas com as falhas de conexão de internet que tivemos durante a entrevista, o padre marcou com profundidade e emoção suas respostas.

(Obs.: A dica para ler imaginado seu sotaque italiano também se aplica aqui)

Qual o segredo para essa alma tão jovem e entregue à Providência, padre?

A adrenalina que sai do coração transpassado de Jesus. A adrenalina da cruz, porque aquele grito de Jesus na cruz: “tenho sede”, não me deixa sossegado…

Qual a sua maior experiência durante esses 39 anos de sacerdócio?

São tantas experiências, riquezas e graças que não tenho como identificar uma experiência mais forte. Mas, uma das tantas, é celebrar diariamente a Eucaristia. Nunca deixei de celebrar e pra mim sempre foi um momento de muita comoção.

Agora, o que mais me comove e me toca, é a experiência da confissão, reconciliação. Também essas são tantas, tantas. Não saberia dizer a mais bonita.

Vivo a vida como uma aventura com Deus. A cada dia Ele me leva a um encontro pessoal com Ele através dos irmãos, pobres e através, sobretudo, daqueles que precisam do Seu perdão.

Entendi que desde o seio materno Deus me escolheu para um sacerdócio caracterizado para a restauração das famílias.

E como é para o senhor a experiência de levar Jesus aos mais pobres?

Na verdade, são os pobres que trazem Jesus pra mim. São eles que sempre me ‘desinstalam’ do meu comodismo.

O Senhor nos ensina que quem perde a vida a encontra. Por esse motivo, sempre encontrei nos pobres um caminho de cura, de libertação, de salvação primeiramente para a minha alma, geralmente tentada a apegar-se às coisas, aos projetos, à própria vontade.

Os pobres me trazem ao encontro de Cristo, Cristo feito carne, Cristo que no fim da vida me perguntará: “Tive fome e me deste de comer? Tive sede e me deste de beber? Estava enfermo e viestes me visitar?”. Então, sinto que o pobre me ajuda a encontrar Cristo.

Pe. Henrique na Lixeira de Maputo, durante evangelização

Em muitas de suas falas, o senhor sempre ressalta a misericórdia de Deus. Além de ser o Carisma do Movimento, qual a sua experiência pessoal com esse atributo Divino?

Eu aprendi sobre a misericórdia de Deus sentado no colo da minha avó. Minha vó era filha espiritual de Pe. Pio. No colo dela, aprendi que a misericórdia é primeiramente essa experiência desse amor infinito de Deus na nossa vida.

Minha vó tinha uma filha deficiente, um problema grave. Tinha sempre por essa filha um amor grande. Até morrendo, sua última palavra foi: “Laura”, como que nos recomendando cuidar dessa filha. Aprendi, com ela provavelmente, que o amor de Deus sempre vai para os mais fracos. Que Jesus não veio para os santos, mas para os pecadores.

E qual a relação da misericórdia com seu chamado?

Foi no dia da minha 1ª comunhão que tive a consciência do meu chamado ao sacerdócio. Foi lá que senti uma alegria tão grande, um Deus tão grande que se faz tão pequeno. Senti uma alegria tão grande que queria dar essa alegria para todo mundo.

Então, pra mim, a misericórdia é viver a vida como uma festa.

Como diz uma Palavra muito bonita, que trago sempre comigo, está em IICoríntios 1,24 “não somos donos da fé de vocês, somos colaboradores de vossa alegria”. Com a misericórdia, a vida se torna uma festa e até a morte se torna uma imensa alegria. Peço a Deus essa graça de poder viver a vida confiando nessa misericórdia.

Como vê o crescimento da Aliança, essa Obra sonhada pode Deus?

Eu sei que poderia ser muito melhor se eu fosse mais santo!

Eu creio sempre, sinceramente, que de alguma forma não nasceu ainda. Uma Obra, seu verdadeiro nascimento acontece depois de 100 anos, dizem alguns teólogos.

Claro que a Aliança cresceu, pela misericórdia de Deus, apesar e além das nossas misérias e fraquezas. Mas, me lembro sempre da frase de São Francisco: “até agora não fizemos nada, precisamos começar tudo de novo”.

Desejaria que cada missionário, cada colaborador… deixasse o Espírito Santo soprar sobre a brasa, que às vezes fica escondida abaixo das cinzas, para que o fogo do Espírito possa alastrar um incêndio de misericórdia no mundo inteiro.

E sobre a Cidade Rahamim, padre, o que ela significa para o senhor?

A célula da sociedade, que é Cidade da Misericórdia, pra mim é como uma faísca de um incêndio de misericórdia. Não sei como, porque não tenho dinheiro para construir. Não sei quando, porque talvez isso aconteça depois que minha vida passe nesse mundo. Mas, eu creio que Deus quer mostrar que o Evangelho funciona.

Eu imagino a Cidade Rahamim assim, talvez uma utopia. Estamos construindo uma cidade sem dinheiro no bolso, mas sei que isso não é a dificuldade, o desafio é que todos acreditem no amor e façam dele o sentido da sua vida.

Alguém te inspira, padre?

Neste momento, você!

(– Eu te inspiro com várias perguntas, né? – com risos)

Não só por isso. Eu olho para você e penso: “quanta vida que você tem”.

Cada pessoa que recebo me inspira, entende?! Essa é a grande inspiração.

Acho que para quem tem olhos contemplativos, cada momento tem um irmão que poderá inspirar-te, despertar em ti a saudade do Paraíso.

 

Comunhão entre eles

Ao fim da entrevista, o padre João Henrique fez um bonito comentário, a respeito da unidade entre ele e padre Antonello, na experiência de fundação da Aliança de Misericórdia.

Uma vivência importante com padre Antonello é aprender a experiência de Jesus no meio. Isso se torna critério de discernimento da vontade de Deus, aquilo que para nós sempre foi comum para entendermos o que Deus queria, e então, realizar sem demora.

Descobrimos a vitalidade da Palavra colocada em prática, a fecundidade de uma vida vivida na Palavra, e o crescimento de uma vida comunitária quando se busca no Evangelho, sem tantas complicações, o sentido da vida.

Foi em Medjugorje, quando a Aliança estava nascendo, que Nossa Senhora nos deu uma regra, que pra nós ficou como orientação para a nossa vida: “Ore, ore, ore. E se for a vontade de Deus, dê o passo, porque Ele mostra um passo por vez. Se não for claro, espere e ore mais até que os dois sintam, em uníssono, aquele passo que Deus quer”. Esse foi o caminho. A partir dessa vida de comunhão e oração, se irradia toda criatividade do Espírito Santo de que a Aliança se caracteriza: evangelização nas ruas, evangelizações noturnas… esta criatividade do Espírito Santo para que ninguém se perca. Tudo jorra da comunhão com Deus e unidade com os irmãos e entre nós.

 

Convite

No dia 12 de abril, em celebração a essa data especial, teremos uma missa transmitida pelo canal da Aliança no YouTube e página no Facebook, às 19h. Acompanhe conosco.

[i] Chiara Lubich é também italiana e fundadora do Movimento dos Focolares, com marco significativo na história de Igreja. Faleceu em 2008 e em 2015 teve início o seu processo de beatificação. Nas palavras do Papa Francisco, ela “acendeu para a Igreja uma nova luz sobre o caminho para a unidade”. Com sua vida, influenciou muitas pessoas, inclusive na espiritualidade dos nossos fundadores.

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