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Nivaldo da Cruz | Na prisão, um convite à liberdade

Estamos no mês “Aliança no Céu”, na “Semana Nivaldo da Cruz” e fiquei com a responsabilidade de falar sobre algo que está presente em sua história e, inclusive, em seu último dia de vida: a missão na Fundação Casa (antiga FEBEM).

Nivaldo na FEBEM

No dia de sua morte, Nivaldo, Maria Paola e outros missionários da Aliança foram à Fundação Casa da Raposo Tavares, em São Paulo, para uma missão com os meninos reclusos lá.

Momento de adoração na Febem com Maria Paula e Nivaldo
Acervo histórico da Aliança

Na foto acima, podemos ver que não foram sozinhos. Os missionários levaram com eles Aquele que realmente pode libertar qualquer um de qualquer escravidão, de qualquer corrente, de qualquer cadeia, mesmo que esse fique lá pelo resto da vida.

Sim, a liberdade pregada não está condicionada ao espaço físico. Isso vemos, por exemplo, no testemunho do Servo de Deus Jacques Fesch que conheceu a Deus na prisão ou ainda do presidiário polonês que se tornou missionário da Aliança.

É uma liberdade que vai além, que está mais no interior que no exterior, apesar da aparência, das atitudes e escolhas também reafirmarem essa libertação.

Você vem comigo ao Paraíso?

Naquele dia 16 de setembro de 2001, Nivaldo pregou aos jovens sobre a passagem do Bom Ladrão (cf. Lucas 23, 32-43). E dizia:

“Perto da Cruz de Jesus – dizia Nivaldo – estava um ladrão, que havia sido condenado à crucificação devido às suas próprias culpas, mas que diante do Filho de Deus soube reconhecê-Lo e, com humildade, disse-Lhe: ‘Senhor, lembra-Te de mim quando estiverdes no Paraíso’.

Eu também – continuava Nivaldo – fui ladrão como vocês talvez tenham sido, assaltei, usei e trafiquei drogas, fui membro de uma quadrilha e vivi no crime, usei o revólver e me sentia forte com isso. Mas um dia, no auge do desespero, eu também falei para Jesus com reta intenção e humildade: ‘Senhor, lembra-Te de mim!’ e Ele se lembrou! Ele me tirou do abismo em que eu havia caído, porque invoquei o Seu santo nome com sinceridade de coração”.

Mas Nivaldo não parou por aí. Nivaldo fez um convite aos meninos. E esse convite se tornou profecia em sua vida: Sim, eu quero ir ao Paraíso, mas não sozinho“. Começando a apontar os rapazes da FEBEM, acrescentou: “e você, vem ao Paraíso comigo? E você também vem ao Paraíso comigo, e você?”. Assim repetiu por várias vezes para que aqueles jovens se percebessem amados de modo pessoal, particular. Ao fim de tudo, concluiu: “porque ser consagrado significa não ir ao Paraíso sozinho!”.

Uma profecia

Na madrugada daquele mesmo dia, indo atrás de uma ovelha perdida, Nivaldo faleceu num acidente. Apesar de não ter encontrado a ovelha fujona, Nivaldo tornou-se um bom pastor que foi até o fim. Deu a vida, pois o seu convite ao Paraíso não era teórico, nem fantasioso: era prático, era real! No seu funeral, aquele filho voltou e não saiu do seu lado, como contam os que estavam no dia.

Aqueles jovens da Fundação Casa (FEBEM) nem imaginavam que aquela pregação era um convite não para depois, mas para aquele mesmo dia, pois a escolha pelo Céu, pelo Reino de Deus, não pode ser adiada.

A minha experiência

Durante alguns anos da minha vida, cheguei a ir à Fundação Casa até três vezes na mesma semana para cantar, pregar, conversar, orientar.

Confesso que não é das missões mais fáceis, em especial quando tive a oportunidade de ir à unidade que é uma espécie de triagem. No meio da pregação, oração ou ministração, chegava um novo jovem para a medida socioeducativa.

Não vamos lá para julgar, nem condenar, nem dizer quem está certo ou errado, mas para anunciar que, mesmo ali, é possível existir e viver a liberdade, pois essa consiste em escolher por Cristo, seguir Seus mandamentos e deixar-se guiar para uma vida nova, longe das más companhias, das más escolhas, dos maus caminhos.

Algumas vezes pude falar do Nivaldo lá dentro, como alguém de quem Deus se utilizou para provar que para Ele não existe nenhum caso perdido.

Conheci meninas e meninos com sonhos destruídos, corações partidos, inocência corrompida e quase que com as vidas vendidas/perdidas por conta do que fizeram.

Mas eu pude experimentar ali, algo que pela vocação ao celibato faz parte de mim. Mas ali foi potencializado: uma paternidade espiritual muito além das aparências.

Num Dia dos Pais, diante de uma das dinâmicas de oração que fizemos na Fundação que tinha em Taipas, próximo ao Botuquara, uma das meninas, com a consciência da minha vocação, chegou a mim e perguntou: “senhor, você quer ser meu pai? Tipo, me ajudar a ser melhor?”. Ali eu entendi o que o Nivaldo quis dizer sobre o consagrado não ir sozinho ao Paraíso.

Apesar da atrocidade cometida, aquela menina queria recomeçar e por isso estava pedindo ajuda. Em mim ela via uma paternidade e eu só podia lhe apontar o Céu como destino real, verdadeiro, onde não há grades, nem choro, nem tristeza. Um Céu que deve ser o resultado do nosso maior e mais importante projeto de vida.

Gosto demais do Nivaldo. Apesar de não o ter conhecido pessoalmente, nutro com ele uma amizade espiritual. Sua vida e vocação me falam sobre entrega, celibato, missão, integridade, mudança de vida, consagração e martírio. Ele constantemente me acompanha em minhas orações.

Nivaldo, como e com a Maria Paola, pôde cantar “ninguém me tira a vida, sou eu quem a ofereço”. Ele ofereceu a vida para que outros a tivessem em abundância.

Ele dizia, parafraseando São João da Cruz, que “O Amor não cansa e nem descansa” e foi esse mesmo Amor que não o deixou descansar sem dar a vida.

Obrigado, meu amigo, por sua vida!

Robson Paes Landim
Amigo Missionário e Colaborador da Aliança de Misericórdia

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