Estudo das cartas de São Paulo – Cônego Celso Pedro

Nas cartas de São Paulo conhecemos a vida do Apóstolo, o Evangelho que ele anunciou, e fortificamos nossa fé na pessoa de Jesus. O ensinamento das cartas nos torna cristãos mais sólidos.

Conheça o Apóstolo São Paulo

Na Bíblia temos 14 cartas atribuídas a São Paulo. De fato, só sete foram com certeza escritas por ele.

São as seguintes: Romanos, 1ª e 2ª aos Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1ª aos Tessalonicenses e Filêmon. Há três outras que é bem possível que tenham sido escritas também por Paulo. São as cartas 2ª aos Tessalonicenses, Colossenses e 2ª a Timóteo.

As quatro restantes certamente não foram escritas por Paulo, mas por alguém que o conheceu e com ele trabalhou. São as elas: Efésios, 1ª a Timóteo, Tito e Hebreus.

Temos ainda uma outra fonte de informação, que é o Livro dos Atos dos Apóstolos. São Lucas conta muitas coisas que não estão nas cartas, e assim podemos conhecer outros aspectos da vida de Paulo.

Paulo foi um bom judeu, entusiasmado pelo Deus de Israel. Depois de sua conversão, compreendeu que todas as promessas feitas por Deus se realizaram em Jesus Cristo, e continuou entusiasmado pelo Deus de Israel que se revelou em seu Filho, Jesus.

Jesus vai ser tudo na vida de Paulo, por isso ele quer anunciá-lo sempre e em toda parte. Ele está sempre alegre, sempre em oração e nunca se cansa.

Entrevista com o Apóstolo

Para saber alguma coisa sobre o Apóstolo São Paulo nada melhor do que perguntar a ele sobre sua vida e sobre suas atividades pastorais.

É bom saber a sua história, conhecer suas viagens, descobrir a razão de suas cartas para compreender o que ele escreve. Podemos pedir a Paulo que se apresente e nos diga alguma coisa de suas viagens missionárias.

Como fazer isso? Um caminho seguro é consultar as cartas que ele escreveu. Nelas encontramos informações dadas por ele mesmo.

O que diz as epístolas

Que informações então nos dão as cartas sobre a pessoa de Paulo? Primeiramente, que ele era um judeu fervoroso e praticante, observante das leis e das tradições de seu povo.

Ele escreve aos filipenses dizendo que era hebreu, filho de hebreus, da raça de Israel, da tribo de Benjamin, do grupo dos fariseus e circuncidado ao oitavo dia conforme as prescrições da Lei (cf. Fl 3,5-6).

Aos coríntios ele reafirma que é hebreu, israelita, descendente de Abraão (cf. 2Co 11,22). Aos romanos mais uma vez ele dirá que é descendente de Abraão e da tribo de Benjamin (cf. Rm 11,1). Ele se identifica, portanto, como um bom judeu, zeloso e irrepreensível na observância da Lei de Israel (cf. Fl 3,6).

As descrições que São Lucas faz de Paulo são sempre mais extensas, com dados que não se encontram nas cartas.

Assim, pelo livro dos Atos dos Apóstolos ficamos sabendo que Paulo se chamava Saulo e que tinha nascido na cidade de Tarso, na província romana da Cilícia, com direito, portanto, à cidadania romana (cf At 9,11; 21,39).

Paulo era judeu de sangue e legalmente romano (cf At 16,37; 22,27-28; 23,27). Lucas acrescenta ainda que Paulo foi criado em Jerusalém e que nesta cidade estudou sob a orientação de Gamaliel, tornando-se um zeloso observante da Lei de seus pais (cf At 22,3). Foi em Jerusalém que Paulo começou a perseguir os cristãos.

Perseguidor de cristãos

O que é que Paulo diz sobre sua aversão aos cristãos e a perseguição que moveu contra a Igreja nascente? De fato, nas cartas, Paulo reconhece ter perseguido a Igreja.

Ele escreve aos gálatas dizendo que perseguiu muito e devastou a Igreja de Deus (Gl 1,13-14), e repete aos filipenses e aos coríntios que perseguiu a Igreja (cf. Fl 3,6 e 1Co 15,9). Lucas tem as mesmas informações sobre a atitude de Paulo contra os cristãos e acrescenta que Paulo “respirando ameaças de morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo-sacerdote.

Foi pedir-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de poder trazer para Jerusalém, presos, os que lá encontrasse pertencendo ao Caminho, quer homens, quer mulheres” (At 9, 1-2).

Note como Lucas chama a Igreja primitiva. Ele a chama de “Caminho”, e isto significa uma maneira de se viver. Os discípulos de Jesus seguem um caminho, eles têm uma maneira própria de viver.

Saulo de Tarso, que depois se chamará Paulo, é, pois, um judeu com cidadania romana, do grupo dos fariseus, educado em Jerusalém por Gamaliel, zeloso observante das Leis de Israel, adversário e perseguidor dos primeiros cristãos.

A conversão de São Paulo

A impressão que se tem de Paulo nos relatos de São Lucas é que ele foi um ardoroso perseguidor dos primeiros cristãos. Lemos em At 22,3-4 Paulo dizendo “Eu estava cheio de zelo por Deus, persegui até a morte este Caminho, prendendo e jogando na prisão homens e mulheres”.

Quando ele diz que “estava cheio de zelo por Deus”, isto significa que lutava em defesa da sua fé e da observância da lei mosaica, e que alguém estava introduzindo mudanças nas tradições religiosas de seu povo, enganando o povo com mentiras e desvirtuando a pureza do seu judaísmo. Esse alguém eram os cristãos.

Os cristãos irritavam os judeus, sobretudo em dois pontos: a afirmação de que Jesus de Nazaré era o Messias prometido, e alguns até diziam que esse Messias era Deus, e a aceitação de não judeus em suas comunidades.

Lembremo-nos de que naquele momento todos eram judeus tanto os que aceitavam como os que não aceitavam Jesus como Messias, e que ninguém pensava em deixar de ser judeu. Na realidade discutia-se para se ver quem era verdadeiramente judeu.

Os cristãos se acreditavam verdadeiros judeus, fiéis às tradições de Moisés. Paulo, porém, pensava de outro jeito. Os cristãos eram apóstatas da fé judaica, difundindo a mentira da ressurreição de um Jesus que estava bem morto, e maculando a pureza judaica com a admissão de pagãos entre eles.

O encontro em Damasco

Lucas descreve de forma exuberante a mudança de Paulo na estrada de Damasco. Por três vezes São Lucas apresenta a conversão de Paulo quando este judeu zeloso pela causa de seu Deus se dirigia à cidade de Damasco na Síria, com cartas de recomendação do sumo-sacerdote de Jerusalém, para prender os cristãos.

“Saulo, por que me persegues?” Uma voz forte se faz ouvir no caminho. Envolto por uma claridade, Saulo cai do cavalo. A voz era de Jesus. Lá estava Paulo diante daquele que estava morto, que era uma mentira, uma fraude inventada por seus discípulos e que ele rejeitava com todas as suas forças.

O que fazer? Paulo não era homem de negar a evidência. Não havia outro caminho no caminho de Damasco a não ser reconhecer a verdade do Caminho. Para saber o que Lucas escreve pode-se consultar o Livro dos Atos dos Apóstolos. Lucas relata a conversão de São Paulo nos capítulos 9, 1-30; 22, 5-16; 26,9-18.

O que Paulo fala de si?

E Paulo, o que é que ele mesmo diz de sua conversão nas cartas? Note que em At 9 Lucas relata a conversão na terceira pessoa, contando o que aconteceu com Paulo, mas nos outros capítulos, 22 e 26, é Paulo quem fala. O escritor, porém, é sempre São Lucas e não o próprio Paulo.

Nas cartas podemos obter informações que vêm diretamente de Paulo. É na Carta aos Gálatas que ele vai nos dizer como foi a sua conversão. Com poucas palavras, ele diz tudo o que aconteceu. Confira Gálatas 1,15-16. Lá está escrito:

“Quando, porém, aquele que me separou desde o seio materno e me chamou por sua graça, houve por bem revelar em mim o seu Filho, para que eu o evangelizasse entre os gentios, não consultei carne nem sangue…”.

Segundo este texto, o que foi que aconteceu com Paulo em Damasco? Deus revelou nele seu Filho, Jesus Cristo. Paulo fez uma experiência interna da verdade de Jesus. Ele experimentou dentro dele mesmo, por graça de Deus, que Jesus existia, estava vivo e não era uma fraude.

Algo muito forte aconteceu na vida de Paulo naquele momento. Ele sentiu por dentro a presença de Jesus e entregou-se. Não tinha outro jeito. Ali estava Jesus vivo, o Messias vindo de Nazaré, enviando-o a anunciar o Evangelho aos pagãos, os dois pontos que irritavam os judeus e o próprio Paulo.

Tudo pode ter acontecido como São Lucas descreve. O importante, porém, é que Paulo fez uma experiência pessoal de Jesus.

A comunidade de Antioquia da Síria

O período que podemos chamar de ‘formação e conversão’ de São Paulo é situado pelos Atos dos Apóstolos nas cidades de Tarso na Cilícia, Jerusalém na Judeia e Damasco na Síria.

Uma vez convertido, Paulo passa um tempo no que ele chama de Arábia, que seria o deserto ao sul de Damasco, pertencente na época ao reino dos nabateus (cf Gl 1,17). Desta Arábia ele refaz o caminho passando por Damasco e Jerusalém, chegando a de volta a Tarso, sua cidade natal.

Lá ele retoma a sua vida normal, junto da sua família, até o dia em que foi procurado por Barnabé. Barnabé vai a Tarso convidar Saulo para trabalhar com ele na formação da nova comunidade de Antioquia na Síria.

Aqui se inicia uma nova etapa na vida do Apóstolo, tendo Antioquia como ponto de partida. A cidade ficava à margem do rio Orontes e era a terceira do império, depois de Roma e de Alexandria do Egito. Quando Paulo foi para lá, era a capital da província romana da Síria.

Primeiras controvérsias

O Livro dos Atos dos Apóstolos nos conta que depois do apedrejamento de Santo Estevão em Jerusalém alguns discípulos de Jesus foram para a ilha de Chipre, e outros para a Fenícia, chegando até Antioquia, na Síria.

Como todos eram judeus, no lugar em que chegavam, procuravam manter contato com os judeus. Em Antioquia, alguns, que eram de Chipre e de Cirene e falavam a língua grega, dirigiram-se também aos pagãos.

Muitos desses pagãos aceitaram o anúncio de Jesus Cristo e se converteram. A notícia chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém e seus dirigentes enviaram a Antioquia Barnabé, que também era de Chipre, para verificar o que estava acontecendo (cf At 11,19-26).

Vemos aqui a primazia da Igreja de Jerusalém, a primeira sede apostólica e sua perspicácia ao enviar Barnabé. Foram discípulos chipriotas, juntamente com os de Cirene, que começaram a evangelização dos pagãos em Antioquia. Ora, Barnabé era chipriota.

No entanto, a questão mais importante estava ligada à entrada de pagãos na comunidade cristã de origem judaica, ou na comunidade judeu-cristã. Mais do que uma grande alegria, tais conversões causaram susto e preocupação aos dirigentes da Igreja de Jerusalém, sobretudo a Tiago, o Menor, muito ligado às suas raízes judaicas e que foi o Bispo de Jerusalém.

Crescimento na fé

Não foi fácil para os primeiros cristãos de origem judaica aceitar a convivência com cristãos de origem pagã. Perdurava a ideia de que um pagão primeiro devia se tornar judeu e depois cristão.

Os primeiros judeus cristãos discutiam com os judeus não cristãos para saber quem era verdadeiramente discípulo de Moisés, ou seja, quem era verdadeiramente judeu.

A tribulação da Igreja de Jerusalém deu origem à Igreja de Antioquia. Barnabé pôde constatar a presença da graça de Deus entre os antioquenos e se alegrou.

Como eram muitos os novos cristãos, Barnabé foi a Tarso pedir a Saulo que viesse ajudá-lo. Barnabé conhecia Saulo de Jerusalém. Talvez o tenha conhecido antes da conversão e sabia o valor daquele homem.

Quando Saulo saiu de Damasco e passou por Jerusalém, foi Barnabé quem o apresentou aos Apóstolos e lhes explicou o que havia acontecido com o antigo perseguidor. Muitos ainda tinham medo de Paulo que, no entanto, ia se tornando um intrépido pregador da Palavra (cf At 9,26-30).

Pode-se entender a atitude de Barnabé para com Paulo tanto em Jerusalém como em Antioquia, quando dele se diz que era “um homem bom, repleto do Espírito Santo e de fé” (cf. At 11,24). Paulo teve a graça de se encontrar com um homem assim, com tais qualidades.

Barnabé, com sua bondade, o toma pela mão e o apresenta aos apóstolos, o toma pela mão e o leva à ação pastoral em Antioquia. Talvez valha a pena sublinhar as três qualidades de Barnabé que o tornaram apto à missão em Antioquia.

Ele era gente boa, cheio do Espírito Santo e cheio de fé! Tais qualidades poderiam ser requeridas de todos nós, de preferência a outras, ao assumirmos qualquer missão na Igreja.

Cônego Celso Pedro da Silva

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