Setembro Amarelo: conhecimento, prevenção e amor!

Mas por que setembro e por que amarelo? Procurei saber mais à fundo o porquê do “setembro amarelo” no nosso país.

Números que assustam

Segundo a OMS, 1 milhão de pessoas por ano se suicidam no mundo, o que corresponde a cerca de 114 mortos por hora. Dentre essas, 61 mil pessoas, por dia, no mundo, têm a iniciativa, mas não bem-sucedida.

Os números são altos e assustam! São pessoas como eu e você que podem estar precisando da nossa ajuda.

Esse é o motivo de pararmos nesse mês de setembro, para nos debruçarmos nesse assunto, tirando todos os tabus que se referem ao tema e dando possibilidade de ajuda para quem está passando por ideações suicidas ou quem convive com pessoas que podem estar sofrendo.

Mas por que setembro e por que amarelo? Procurei saber mais à fundo o porquê do “setembro amarelo” no nosso país e encontrei a história de um jovem que tinha um carro amarelo, em uma cidade interiorana e para todos parecia ser uma pessoa tranquila, por ser trabalhador, alegre, criativo e simpático.

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O sofrimento escondido

Homem angustiado
A sociedade está doente.

Mas esse jovem escondia sofrimentos que, não compartilhados, se transformaram em uma grande tragédia: enforcou-se repentinamente.

A família e os amigos, então, após sofrerem o luto do jovem, escreveram bilhetes amarelos com frases como “Eu preciso de ajuda” e espalharam pela comunidade local para que pessoas que tivessem ideações suicidas, entregassem a algum amigo, familiar, professor ou médico, e não guardassem suas dores até chegarem ao fundo do poço.

Os bilhetes foram espalhados e, em apenas 3 semanas, já tiveram notícia que deu certo. Pessoas haviam pedido ajuda através do cartão. Desde, então, a fita amarela se tornou símbolo da prevenção do suicídio e uniu-se ao 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

Estatisticamente, setembro é o mês com mais recorrência do ato suicida no mundo.

Todos sofrem

Apesar de existir mais casos em adolescentes e idosos, um fator relevante nessa história contada acima é que o suicídio não escolhe rosto, classe social, raça, gravidade do problema pessoal e fase da vida!

Muitas pessoas engraçadas e muito sociáveis, podem estar vivendo um grande tormento interior e não demonstrarem. Podem estar do nosso lado todos os dias e não as percebermos.

Em 1897, muitos anos atrás, o antropólogo E. Durkeim dizia, dentre outras afirmações em seu livro sobre o tema, que a maioria das pessoas que tentam suicídio, tem alguma dificuldade em seus vínculos sociais relevantes, direta ou indiretamente, tratando-se de forma particular de vínculos familiares.

Essa teoria pode sinalizar uma ligação do fenômeno do suicídio com o esfacelamento da estrutura “família”. Após a Revolução Industrial, nos grupos secundários (diferente do primário-família), as pessoas passaram a ter relações mais descartáveis, muitas famílias se tornaram uma empresa, com ligações financeiras e divisões fortes.

Há um aumento considerável (27,2%) do número de suicídio antes e depois dessa grande mudança socioeconômica mundial.

Problemas sociais e familiares

O aumento de consumo de drogas ilícitas e lícitas está amplamente ligada a essa transformação e, por coincidência ou não, um dos indivíduos mais propensos ao suicídio é o usuário de álcool e droga. Esses dados precisam nos fazer pensar!

Será que são mesmo só coincidências? Será que a perda do vínculo afetivo relevante, a sociedade “descartável” e os valores da família podem estar propiciando uma sociedade doente, com valores contrários à vida?

Ao atendermos as pessoas, percebemos que muitas estão sem sentido, que não sabem lidar com o sofrimento por não terem motivos profundos para vivê-lo. Há um certo vazio existencial que paira sobre a humanidade e que a fé pode trazer vida!

Segundo Viktor E. Frankl, fundador da Logoterapia (terapia pelo sentido), as pessoas, no campo de concentração onde ele esteve na Alemanha, que tinham um sentido para viver fora de si mesmos, tendiam a lutar mais pela própria vida. As que não tinham, eram mais propensas ao suicídio ou se entregavam para os guardas dos campos os matarem.

Em busca de Sentido

Ele percebeu que as pessoas costumam ter motivos para viver, tais como: um filho que as esperam, um sonho para concretizar, uma história de amor, dentre outros. Muitas vezes, iluminar essas pessoas em desespero para esses motivos, é como lançar uma “bóia” para que se segurem e salvem-se.

Mas além desses fundamentais motivos, existe para nós cristãos, na vivência profunda da fé, um motivo maior: fomos pensados e amados por Deus!

Ele me desejou e tem planos para minha vida! E me espera para, no fim dessa realidade aqui, realizar-me plenamente no céu. Este é o motivo mais transcendente que nos motiva, não só a não termos a coragem de dar cabo da própria vida, mas a fazer da nossa história um presente precioso a Deus.

Saber-nos amados e planejados pode cessar toda sombra de invalidez, desmotivação e rejeição que rodeiam os pensamentos de quem está sem esperança com a vida.

O Encontro com Deus como alívio

A nós cabe a acolhida.

Temos presenciado em nossas missões tantos casos assim, em que a pessoa havia perdido o sentido de viver e o reencontrou ao ter contato com o Amor de Deus e, desse modo, com seu valor único e precioso.

A fé, muitas vezes criticada e até mesmo culturalmente varrida de nossa realidade como algo desnecessário, tornou-se para maioria das ciências, um auxílio para tratamentos e inclusive, ponto muito importante para prevenção ao suicídio. Pessoas que têm uma fé e que possuem valores cristãos, tendem menos ao desespero.

Segundo especialistas, autópsias de pessoas suicidas demonstram que, a grande maioria das pessoas que se matam tem uma alteração no córtex frontal, ligada à redução de serotonina, hormônio ligado à sensação de alegria.

Mesmo aquelas pessoas que não se encontram dentro de um quadro de transtornos graves ou uso de medicação ou drogas, todas carecem de alegria, de esperança, desejando muitas vezes não a morte, mas acabar com o sofrimento que as atormentam.

Esse desequilíbrio neuroquímico produz essa sensação de mal estar constante e desprazer com a vida.

Quando elas têm o suporte da fé, quando podem recorrer à oração e têm amigos verdadeiros em que podem confiar, tudo isso pode se tornar um sustento de esperança e alento que não conseguem vislumbrar sozinhas no tempo de dor.

Entender para ajudar

Alguns casos recorrentes são: pessoas que perderam entes queridos, término de um relacionamento, pressão social, desemprego e crise psicótica. Mas têm também muitos casos repentinos, nos quais a pessoa é acometida por um desespero e toma uma decisão de forma súbita.

Muitas pessoas deixam bilhetes, cartas e até seguro-funeral, fatores que demonstram o preparo antes de se matar. Mas outros não! Apenas tomam uma decisão repentina péssima, em um dia péssimo.

Segundo o americano Dr. Karl Menninger, médico psiquiatra, há sentimentos que aparecem na mente humana que podem ser recorrentes nos casos de suicídio: o desejo de matar, de ser morto ou de morrer.

Desejos de morte

O desejo de matar pode ser fruto de uma profunda autorrejeição, mas também ligado a relacionamentos com as pessoas da família com o desejo de fazer raiva nelas, de vingar-se. Ele está dizendo ao outro: “vou matar você de dor ou de remorso ao suicidar”.

O desejo de ser morto, pode ser uma fuga para pessoas que estão vivendo sobre algum tipo de pressão, ameaças e abusos, onde existe um “carrasco” e uma “vítima” vivendo nessa pressão. Neste caso, a pessoa já está vivendo uma profunda perda de esperança.

Alguns outros correm ao encontro da morte para reencontrar algum ente querido que já se foi. A não aceitação da perda, a revolta contra a realidade e um luto mal vivido podem levar ao suicídio.

Há muitos casos em que a pessoa colocou todo seu valor, toda a sua dignidade, na dependência de outra pessoa, sendo então “morta” ao enterrar o outro, e as ideias suicidas o acompanham.

O arrependimento

Ao atendermos pessoas que passam por uma tentativa e sobrevivem, todos dizem frases como “me arrependi”, “ainda bem que fui salva, ia fazer uma loucura”, “como pude ter coragem de fazer isso”.

Afirmações como essas, tão carregadas de arrependimento, demonstram que, devido ao problema emocional vivido, o cérebro da pessoa está neuroquimicamente desfavorecido, há uma disfunção fisiológica real.

Os sentimentos estão comprometidos e a realidade está distorcida negativamente. Essa informação é muito importante ser comunicada a pessoas que tem ideação suicida, pois elas ainda podem tentar de uma outra forma, percebendo não ser uma solução e nem uma saída.

A nós do meio religioso, pessoas de fé, cabe uma acolhida calorosa e cheia de esperança, e não emitir julgamento por palavras ou gestos, que podem não dar abertura para a pessoa abrir-se e encontrar a raiz do que a faz sofrer.

Não tem motivo para julgamento, pois o sofrimento e o desespero podem bater na porta de qualquer um! Não existe um motivo grande e um pequeno, existe sofrimento pessoal e cada pessoa, em sua individualidade, vivencia interiormente de sua maneira.

ASSISTA O VÍDEO GRAVADO PELA PSICÓLOGA E MISSIONÁRIA ROSANA MENEZES SOBRE COMO AJUDAR PESSOAS COM DEPRESSÃO E DESEJO DE SUICÍDIO.

O que fazer?

A Palavra de Deus e todo o valor que ela contém, muito pode contribuir para que a pessoa se sinta verdadeiramente amada e encontre novamente sentido para viver e viver com qualidade. Jesus nos diz: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Além da dimensão da fé e da acolhida, você deve estar se perguntando “o que mais posso fazer concretamente para ajudar essa pessoa?” .

Se alguém já demonstrou a você que, de alguma forma, tem tais pensamentos, segue alguns posicionamentos recomendados por psiquiatras e psicólogos:

  • Reduzir o acesso aos meios de risco (armas, medicações e etc);
  • Dar acesso à pessoa a meios de comunicação responsáveis e evitar contato com filmes ou vídeos tendenciosos, com apologia à morte;
  • Identificar logo o problema e encaminhar a pessoa a tratar as questões que a faz sofrer (para identificar precisa de acolhimento, atenção, escuta e presença);
  • Tratamento da dor crônica (psiquiatra e psicólogo);
  • Cuidado e acompanhamento para quem já tentou alguma vez (nunca deixar a pessoa sozinha, ajudar a aumentar o ciclo de amizades…);
  • Relembrar a importância da pessoa e ajudar familiares e amigos a lidar com maturidade com o sofrimento que ela tem passado. Promover empatia;
  • Divulgar o número gratuito da CCV: 188. Pessoas preparadas atendem com sigilo total, 24 horas todos os dias.

Mais que nos casos da TV e internet, perceba o seu círculo de convívio social, interesse-se pelo sofrimento do seu familiar, seja uma pessoa empática e com iniciativa de amor!

Acolher com amor

A maior prevenção para o suicídio é o Amor! Ame muito, construa laços profundos e livres, cultive valores ligados a este princípio. Esse é o maior bem que você pode fazer aos outros e a si mesmo, e esse é o pedido de Deus para todos os seus filhos!

“Amemo-nos uns aos outros,
porque todo aquele que ama conhece a Deus” (1Jo 4, 7).

Vanessa Paula
Consagrada Celibatária da Aliança de Misericórdia
Psicóloga CRP 06-152206

REFERÊNCIAS 

Glen Gabbar, M.D., P.H.D., New York State University, Baylor College of Medicine, Houston, Texas. Psiquiatria Psicodinâmica Clínica, Artmed, 2016. Durkheim, E. – O Suicídio https://edisciplinas.usp.br/pluginfi​         l

Frankl, Viktor E. Em busca de sentido, 1984.

Programa Claramente (TV Novo Tempo): youtube.com/channel/UCrp1lzr44Pi_MfuXzlkwV0Q Organização Mundial de Saúde (OMS) 2018

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