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O que o Novo Testamento e a Tradição falam dos Anjos

Afresco do Arcanjo São Gabriel

Nesta segunda parte do nosso estudo sobre os Santos Anjos, Júlio Neto aponta algumas das principais passagens bíblicas que atestam a a função e a ação dos servidores celestiais em favor do reino de Deus.

O que diz o Novo Testamento

As atuações angélicas mais pontuais no NT (Novo Testamento) se dão nos relatos da infância de Jesus. O anjo avisa José em sonho sobre o nascimento do menino (Mt 1,20), a fuga para o Egito (Mt 2,13), e do retorno (Mt 2,19).

O anjo mantém a característica de mensageiro que vimos já no AT (Antigo Testamento), e teremos a atuação do arcanjo Gabriel, que é o anjo da Anunciação: é quem fala com Zacarias do nascimento de João Batista (Lc 1,11ss) e a Maria do nascimento de Jesus (Lc 1,26ss); e teremos ainda o anúncio de um anjo aos pastores (Lc 2,9ss).

Os anjos assistem Jesus nas tentações (Mt 4,11; Mc 1,13); um anjo o conforta em sua agonia (Lc 22,43); na ressurreição (Mt 28,2; Lc 24,23; Jo 20,12); os anjos também são ministros do juízo de Deus na parusia: reúnem os pecadores para o julgamento (Mt 13,41.49), acompanham o Filho do Homem em sua vinda (Mt 16,27; Mc 8,38; Lc 9,26), reúnem os eleitos (Mt 24,31; Mc 13,27).[9]

Os anjos auxilando no início da Igreja

Nos Atos dos apóstolos, e principalmente nas cartas paulinas, temos uma imensidão de citações claras da ação dos anjos, seguramente dezenas de citações observa o autor Titus Kieninger, ORC,[10] em seu livro “Entre Anjos e demônios – Testemunho e doutrina de São Paulo”, livro que traz uma verdadeira “herança espiritual extraordinária”[11] de São Paulo Apóstolo.

Mantendo nossa pedagogia, no explorar dos textos Sagrados, podemos pontuar: quando os apóstolos são presos após os sinais que realizam em nome de Jesus, de forma especial quando narra em Atos que todos queriam ao menos que a sombra de Pedro os tocassem, após presos um anjo os vem soltar e os manda anunciar com ousadia as maravilhas de Deus no Templo (At 5,19ss).

Aparece a Pedro no cárcere em sua libertação miraculosa (At 12,7-11); a Paulo na viagem para Roma em que o navio sofria a ameaça de naufrágio e o anjo aparece em sonho garantindo a segurança de todos que estavam no navio (At 27,23); depois em diversos textos paulinos (Rm 8,38-39; Cl 2,18; 2Ts 1,7-8).

No Apocalipse

Concluindo nossa primeira etapa percorrida na Sagrada Escritura, seria um erro absurdo não visitar as páginas e momentos formidáveis que reservam o livro do Apocalipse, onde temos referências muito ricas sobre os Santos Anjos, a começar das cartas aos sete anjos das sete Igrejas.

“Conforme as ideias judaicas, não somente o mundo material era regido pelos anjos (cf. Ap 7,1; 14,18; 16,5), mas também as pessoas e as comunidades (cf. Ex 23,20+). Considera-se, pois, que cada Igreja é governada por um anjo responsável, e a cada anjo será enviado uma carta”.[12]

E, com certeza o episódio mais marcante está na passagem de Apocalipse no capítulo 12, onde temos a narrativa da batalha espiritual de São Miguel e seus anjos combatendo o Dragão que se precipitava contra a Mulher, prestes a dar à luz ao seu filho varão que será aquele a reger todas as nações com cetro de ferro (Ap 12,1ss).[13]

Após termos averiguado nas Sagradas Escrituras a presença dos Santos Anjos na história da salvação, passamos a tocar tal realidade de forma mais dogmática, verificando a doutrina clara e tão bela a respeito dos Santos Anjos na Tradição e no Magistério.

Os ensinamentos da Igreja

Um primeiro ponto que pode nos iluminar vem do Magistério infalível da Igreja que referencia a existência dos anjos, a sua natureza espiritual e, sobretudo, a sua condição de criatura. Isso se certifica no Sínodo de Braga, de 561 (DH[14] 455; 463) e no Concílio de Latrão, de 1215, excluindo categoricamente todo equívoco sobre a Criação, advindo de heresias[15] que afirmavam a existência de um mal que fosse também criado, pelo contrário a sã doutrina nos ilumina que tudo foi criado naturalmente bom, mas no caso dos anjos, estes se tornaram maus por si mesmos; assim como também rejeita a teoria que os anjos são seres não criados[16]:

“Cremos […] que Deus é o único princípio do universo, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, espirituais e materiais, que, com sua força onipotente, desde o princípio do tempo criou do nada uma e outra criação: a espiritual e a material, isto é, a angelical e a mundana; e, depois, a humana, de algum modo comum ‘a ambas’ constituída de alma e de corpo. Pois o diabo e os outros demônios foram criados por Deus naturalmente bons, mas por si mesmos se transformaram em maus” (DH 800; cf. Vaticano I, DH 3002).”

Deus criador do mundo visível e invisível

Da mesma forma, o Catecismo da Igreja Católica vai nos recordar que Deus é o “criador do céu e da terra”, e nos remeter a profissão de fé da Igreja no Símbolo niceno-constantinopolitano, de Deus como o “criador das coisas visíveis e invisíveis”. Assim como a Sagrada Escritura nos demonstra a criação como um todo, definindo tudo criado como “céu e terra”, o visível e invisível, significando tudo aquilo que existe.[17]

São Cirilo de Jerusalém (313-386) falando aos catecúmenos enfatiza esta atuação única do Criador quanto ao mundo visível e invisível:

“Existe Somente Um Único Deus, o Criador tanto das almas quanto dos corpos: O Único Criador do céu e da terra, o Criador dos Anjos e dos Arcanjos; de muitos o Criador, mas o Único Pai antes de todas as eras, – O Único, O Filho-unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo, por Ele todas as coisas visíveis e invisíveis.” (Leitura IV, 12, p67)

Devemos ressaltar que o próprio Concílio Vaticano II (1962-1965), através da Constituição Dogmática “Lumen Gentium”, traz claramente a atuação dos anjos: “Deste modo, enquanto o Senhor não vier na Sua majestade e todos os seus anjos com Ele (cf. Mt 25,31)…” reforça também a unidade da Igreja celeste com a Igreja peregrina.[18]

Então quem são os anjos?

O Catecismo nos indica citando Santo Agostinho:

“’Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntar pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz’. Por todo o seu ser, os anjos são servidores e mensageiros de Deus.”[19]

Este artigo continua em outra publicação
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[9] DICIONÁRIO BÍBLICO. Org. JOHN MCKENZIE. p. 46.

[10] Titus Kieninger ORC é sacerdote da Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz.

[11] BENTO XVI, Papa. Audiência Geral na Sala Paulo VI. O Martírio e a Herança de São Paulo. Roma, 04 de fevereiro de 2009. Atualizado até a última verificação em 29/07/2020 e disponível em: Vatican.va

[12] In. Rodapé da BIBLIA DE JERUSÁLÉM, São Paulo: Paulus, 2004. p. 2143.

[13] Texto reconhecido como a batalha espiritual celeste em que na figura da Mulher se observa Maria, a nova Eva, que dá a luz a Jesus, seu filho e Aquele que há de governar todas as nações, pois é Ele que é arrebatado para junto de Deus e de seu trono, como narra o texto Sagrado.

[14] DH trata-se da abreviatura do “Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral.” Organizado pelo Teólogo Heinrich Denzinger (1819-1883) e citado bibliograficamente como: DENZINGER. H.

[15] Dualismo advindos dos maniqueístas, gnósticos e cátaros.

[16] MÜLLER, Gerhard Ludwig. Dogmática católica: teoria e prática da teologia. Gerard Ludwig Müller; [traduzido por Volney Berkenbrock, Paulo Ferreira Valério, Vilmar Schneider]. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. pp. 100-101.

[17] CIC 325-326.

[18] CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA LUMEN GENTIUM. Documento do Concílio Ecumênico Vaticano II. n. 49 Atualizado até a última verificação em 29/07/2020 e disponível em: Vatican.va

[19] CIC 329

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