Aprecie a paisagem do caminho

O caminho pode ser longo, mas jamais será infinito!

Desde os tempos antigos, o ser humano reflete sobre si mesmo e sobre o fim de sua existência.

Por que estamos aqui? Para qual propósito fui chamado à existência? E porque viver se torna cada vez mais uma analogia de um caminho rumo a um destino certo: a morte? Existe continuidade no fim do percurso ou tudo se finda com o fim da caminhada?

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Uma questão histórica

Quando os primeiros homens migraram do coração da África, há mais ou menos 80.000 anos (segundo alguns cientistas), para outras regiões em busca de condições melhores para viver, parece que o instinto de caminhar e procurar por condições melhores está gravado em nosso DNA.

Na verdade, a maioria dos seres animados, por instinto de sobrevivência, saem de suas zonas de conforto para buscar em outras terras e águas a certeza “incerta” de novas esperanças de sobrevivência.

As histórias contadas no silêncio

Mas, o único animal entre os seres animados a ser capaz de fazer memória, história e cálculo no percurso é o homem – criado à imagem e semelhança de Deus.  Por isso, à luz do Criador, é dotado de razão – que através desta centelha Divina (o intelecto), deixa um rastro de si mesmo por onde passa. (Summa Theologica, I, q.93, a.1).

Este caminho de êxodo, de saída de si, de ir além das próprias fronteiras, se encontra registrado nas civilizações mais antigas.

Por isso, quando fazemos a experiência de viajar, encontramos marcos como palácios, museus, praças, monumentos de civilizações de outrora que deixaram registrados na história a sua presença neste mundo. No fim de tudo, cada monumento desse, mesmo em silêncio, nos fala e nos transmite a vivência daquela geração.

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O êxodo interior

A própria palavra “história” tem a sua raiz no grego: “ἱστορία”, que significa, segundo Aristóteles, busca, investigação e conhecimento adquirido através da pesquisa (Aristóteles, História Animalium V-X). Então, podemos também dizer que quem busca, de alguma forma, caminha e se movimenta interiormente e externamente em direção a algo a descobrir.

Portanto, caminhar é sinônimo de busca e de descobrimento de si mesmo e do mundo.

O caminhar de Abraão

Na cultura judaico-cristã, o primeiro a sair da sua terra de conforto foi o grande Abraão. Já velho foi interpelado e impulsionado a imigrar para uma terra distante, que não conhecia (Gn 12).

Ao sair de seu país e de sua segurança, partiu com tudo o que possuía, isto é: esposa, servos, rebanhos e riquezas. Mas, mesmo com tudo isso, a verdadeira riqueza do Pai da fé era a promessa feita da parte de Deus em seu coração.

No fim de tudo, ele vivia aquela solidão interior que o caminho proporciona: mesmo rodeado de tantos bens e pessoas, seu ser se encontrava sozinho consigo mesmo. E somente quando o homem “torna em si”, em um movimento que os gregos chamam de “metanoia”, que este se torna capaz de redescobrir a rota perdida.

A solidão do percurso

O problema da solidão ao longo do caminho, foi tratada pelo grande filósofo existencialista cristão Kierkegaard. Ele afirmava que o homem carrega em si a angústia da solidão profunda quando confrontado com a realidade da própria existência. Isto é a sua finitude e a limitação que a própria natureza lhe impõe.

Ao mesmo tempo que tal solidão existe, e se torna cada vez real na vida do homem, Kierkegaard nos ensina à luz do pensamento cristão que se, por acaso, lembrares da solidão em teus pensamentos, saiba que diante de Deus tal dúvida e incerteza do caminho vem apaziguada e, no profundo da alma, se descobre a força que encoraja e nos leva a agir, nos faz sair de nós mesmos:

“Este pensamento que temos sempre vividamente frente a Deus, para a dúvida e apazigua sua inquietude; ele encoraja e leva à ação” (KIERKEGAARD, 2008, p. 606).

A esperança nos aponta à rota

Tanto a filosofia e quanto a teologia nos ensinam que não podemos parar no caminho e nas dificuldades da vida, mas prosseguir caminhando em direção à Terra Prometida, pelo qual o Filho de Deus preparou para cada um de nós uma casa, uma família, um refúgio (Jo 14,2).

Portanto, não pare em suas angústias, não tenha medo da solidão do caminho, faça de cada obstáculo uma oportunidade de ser transformado pela dificuldade e tribulação do percurso. Seus músculos serão mais fortes, seu corpo responderá com mais garra e a sua vontade será trabalhada.

Coragem, continue!

Tenhamos a coragem de transformar os nossos barcos a remos em barcos a vela.

Dessa forma, quando navegando em águas tortuosas e em meio a tempestades, não cansaremos ao remar contra os ventos desfavoráveis. Mas, tendo a vela em nosso barco – isto é, a esperança – poderemos aproveitar de tais ventos para redirecioná-los fazendo que a meta seja alcançada.

Continue a caminhar, não desista dos teus sonhos, não escute seus medos, olhe para frente. No fim de tudo descobriremos que a finitude da vida, que desemboca na tumba, não termina, mas continua na Eternidade:

“Não ocupem as coisas perecíveis os predestinados à eternidade. Os atrativos enganadores não retardem os que ingressaram no caminho da verdade. Os fiéis atravessem o tempo reconhecendo-se como peregrinos deste mundo. Se aqui certas comodidades atraem, não sejam perversamente abraçadas, mas com fortaleza, se passe além” (Leão Magno, sermões, LXXIV, 5).

A mensagem final

Não pare! Continue caminhando e não se esqueça de apreciar a paisagem e a beleza do caminho. E descobriremos no fim de tudo que Jesus é o Caminho que conduz à Verdade e à Vida. Tal destino, então, não será um lugar geográfico, mas, ao contrário, transcendente, isto é: a vida íntima de Deus e aquele banquete de festa farta, que nos espera no fim do caminho. E com ele cearemos eternamente! (Mt 26,29).

Rafael Brito
Missionário da Aliança

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