Algorítmo brasileiro promete identificar tendências suicidas em mensagens

Animação que representa a depressão

Pesquisadores do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) criaram um algoritmo capaz de analisar textos em busca de sinais que mostrem tendências suicidas. O estudo foi divulgado na revista científica Plos One.

Usando uma história real

Ives Cavalcante Passos, médico psiquiatra, professor e um dos responsáveis pelo estudo, explicou à BBC que foi escolhido como paciente fictício a escritora britânica Virginia Woolf, que tirou a própria vida em 1941, aos 59 anos.

E isso foi por causa do histórico dela, que se assemelha em muito ao de várias pessoas que acabam se matando: sofria de transtorno bipolar e durante a vida teve diversos episódios depressivos, com tentativas de suicídio.

O algoritmo escolhido foi o mesmo utilizado pelos sistemas de e-mails, para identificar quais mensagens serão direcionadas à caixa de spam e quais permanecem na caixa de entrada. A vantagem no caso da paciente escolhida para os testes, é que Virginia tem uma vasta produção de textos pessoais publicados, por escrever quase que diariamente em seu diário e enviar cartas com frequência.

O estudo fez parte da dissertação de mestrado de Gabriela de Ávila Berni e contou com a supervisão do professor Flávio Kapczinski, da McMaster University.

Processo e resultado

O primeiro passo dado pelos pesquisadores foi “ensinar” ao algoritmo como identificar cartas e outras anotações relacionadas ao desfecho do suicídio. Para tanto, textos escritos por Virginia dentro dos dois meses que antecederam sua morte foram utilizados.

O corte temporal foi determinado pelos próprios médicos, que entenderam que neste período ela já estava em um estágio bastante crítico para o risco de suicídio.

Quando o treinamento do sistema foi concluído, os pesquisadores o aplicaram aleatoriamente em diversos textos da escritora, produzidos em períodos que antecederam tentativas de suicídio como em outros de momentos em que ela estava fora de risco. E o algoritmo foi capaz de acertar em 80% dos casos. A cada 100 textos analisados, em 80 deles o desfecho foi exato: se Virginia iria ou não tentar se matar nos próximos meses.

Expectativa

Passos afirma que, no futuro, a ideia é fazer com que essa mesma ferramenta seja transplantada para um aplicativo que possa analisar tudo o que escrevemos em nossos smartphones, como as mensagens em WhatsApp e outras redes sociais, e a partir disso emitir um alerta caso seja detectado o risco de suicídio.

Apesar disso, ele lembra que o algoritmo é individualizado, já que o padrão de escrita varia de pessoa para pessoa, e que o algoritmo criado para Virginia Woolf funciona apenas com ela.

Outro ponto destacado por Passos é de que a ferramenta só pode ser aplicada em pacientes que já tentaram se matar, justamente porque ela é treinada com base em eventos prévios. Um dos fatores de risco, segundo ele, é o fato de que a pessoa já tentou o suicídio uma vez e outro é que essas pessoas vão deixando sinais e é preciso estar atento.

“Essa pessoa que dá pistas, que fala que vai se matar, que escreve uma carta de suicídio, que no colégio busca o coordenador ou fala para o amiguinho que pode tentar se matar, ela pode realmente se matar”, diz.

A ferramenta pode se tornar ainda mais precisa com a inclusão de outros fatores de risco como histórico de suicídio na família, consumo de álcool e drogas e o sexo do paciente – no Brasil, por exemplo, os homens se matam quatro vezes mais do que as mulheres. Variações no fenótipo digital do usuário, como tom de voz ao telefone e até velocidade de digitação também são consideradas para futuras análises.

Prevenção

Com o algoritmo a medicina pode se tornar mais preventiva, na opinião de Passos. Ele lembra que atende em seu consultório pessoas que chegam deprimidas e que talvez no futuro, com avanços como esse proporcionados pela tecnologia, esses pacientes cheguem até os médicos antes mesmo de entrar num quadro depressivo. “Não vamos tratar o episódio depressivo, vamos prevenir”, finaliza.

Segundo fonte de Sempre Família

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