A paixão e a humildade: condições imprescindíveis para o avivamento

“Não a nós, ó Senhor, não a nós, ao Vosso nome, porém, seja a glória” (Sl 113B(115),1).

Jesus fez uma promessa clara em Jo 14,12-14: “Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai, e o que pedirdes em meu nome, eu o realizarei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes algo em meu nome, eu o realizarei”.

Infelizmente, muitos são os que se apropriam desses versículos de maneira deturpada e batem na porta do céu, petulantes e cheios de direito, exigindo que a promessa se cumpra: “Jesus, você prometeu! Eu quero ver milagres! Onde estão os sinais que você disse que realizaria através de nós?”.

Vejo aqui algo que uma antiga professora de português sempre repetia dentro da sala de aula: o texto fora do contexto vira pretexto!”. Explico o que quero dizer. Na referida citação, há uma condição: Jesus realizará o que for preciso, desde que (e para que) o Pai seja glorificado!

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Isso deve sempre nos levar a refletir: Quando vamos em busca dos sinais, o que temos em nosso coração? Quais são as nossas verdadeiras intenções? Queremos que o Pai seja glorificado ou simplesmente glorificar a nós mesmos? Queremos ser usados por Deus ou estamos buscando o reconhecimento próprio à custa da glória de Deus?

Cristo nos ensina

Ao contemplar o ministério de Jesus, vemos claramente que o Senhor se consumia neste propósito: seu único desejo era que o Pai fosse reconhecido, amado, glorificado! “Precisamente com este propósito vim para esta hora. Pai, glorifica o Teu nome” (Jo 12, 27-28). Por isso, também Jesus se dedicou tanto para cuidar integralmente do homem decaído. Já que “o homem vivo é a glória de Deus”[1], Cristo levou até o fim o projeto da redenção e divinização do ser humano; dessa maneira, a obra prima do Criador era restituída em sua beleza inicial e elevada em dignidade.

Nos céus e na terra, anjos e homens, unidos em um só louvor, maravilhados perante tal realidade, glorificam a Deus eternamente por essa história de amor e misericórdia. Portanto, se realmente somos cristãos, como “outros cristos” deveríamos nos mover nesta mesma direção. Seja através da nossa intimidade na oração, como por meio do nosso apostolado ou promoção das atividades sociais, nosso único desejo deveria ser ver o Pai glorificado!

Humildade e Avivamento

Também nas histórias dos avivamentos percebemos esta realidade enraizada nos corações daqueles que foram usados por Deus como grandes instrumentos desses acontecimentos. Os líderes desses movimentos eram pessoas extremamente humildes, cujos corações buscavam o aniquilamento perante a glória deste mundo, para que unicamente Deus fosse exaltado. Evan Roberts, um dos grandes expoentes do avivamento no País de Gales, estava convicto disso:

“Algumas vezes, Evan Roberts entrava na reunião, ficava num assento da primeira fileira e não dizia nada durante três horas. Então, ele se levantava, pregava, orava por uns dez ou quinze minutos e voltava a sentar-se. Algumas vezes ele pregava o tempo todo ou orava o tempo todo. Algumas vezes, ele permanecia sentado silenciosamente durante toda a reunião. Independentemente do que Evan fizesse, as pessoas continuavam sob a influência do Espírito Santo (…) Evan Roberts sabia que era popular e temia fazer publicidade, porque sentia que tal postura diminuía a importância dAquele que era a verdadeira fonte do avivamento. Ele temia os repórteres. Temia a adulação. Muitas vezes, retirava-se das reuniões quando sentia que as pessoas estavam ali para vê-lo e ouvi-lo ao invés de comparecer pelo Senhor. Em reuniões onde percebia ser o centro das atenções, ele suplicava em agonia às pessoas que voltassem os olhos somente para Cristo a fim de que o Espírito Santo não se retirasse do local. Embora Evan Roberts tenha se tornado o pregador mais célebre do mundo naquela época, ele se recusava repetidamente a dar entrevistas aos repórteres que vinham de todas as partes do mundo. Ele se recusava ser fotografado, exceto por membros de sua família. Ele sabia que aquele despertamento vinha de Deus e não dele mesmo, e que, se as pessoas o idolatrassem, a glória de Deus se distanciaria. Ele nem mesmo respondia aos milhares de pedidos feitos por editoras de todo o mundo querendo escrever a sua biografia. Ele temia muito que, ao aceitá-los, roubasse parte da glória que pertencia somente ao Senhor”[2].

B. Meyer, um renomado e maduro líder cristão daquela época, ao observar o comportamento de Evan nas reuniões, explicou:

Ele não passa à frente do Espírito divino, mas está disposto a ficar de lado e permanecer em segundo plano, a menos que esteja absolutamente convicto de que o Espírito de Deus o está movendo. Essa é uma profunda lição para todos nós!”[3].

No início do avivamento da Rua Azusa não havia plataforma, nem púlpitos. Todos ficavam no mesmo nível. William Seymour, líder nominal daquele mover, “costumava ficar sentado atrás de duas caixas vazias, uma em cima da outra. Normalmente, mantinha a cabeça dentro de uma delas, durante o culto, permanecendo em oração. Não havia orgulho nessas circunstâncias[4].

Os comentaristas desses acontecimentos afirmam que um dos motivos da derrocada dos avivamentos foi justamente quando começaram a surgir grandes protagonistas, quando homens quiseram se apropriar do mover de Deus e engessar as coisas, quando pessoas começaram a chamar mais a atenção do que o próprio Deus. É como se a glória se levantasse e procurasse um outro lugar onde pudesse agir com liberdade!

Quem está no centro?

Irmãos, será este o motivo pelo qual ainda não experimentamos o grande derramamento do Espírito Santo que tanto desejamos? Onde está o nosso tesouro? O que temos procurado? A glória de Deus ou a nossa própria glória? Talvez, por isso não vemos mais sinais como havia antes? Será que Deus, conhecendo nossa condição miserável, sabendo que os sinais confirmariam a nós mesmos e nos colocariam em um caminho sem volta de orgulho e soberba espiritual, prefere não responder às nossas orações?

Já há algum tempo esse tipo de comportamento tem me incomodado. Há ainda muita vaidade presente no Corpo de Cristo, a começar de mim! Vejo carismas sendo considerados melhores uns que os outros; Movimentos lutando para mostrar quem faz mais, quem aparece mais! Uma preocupação exagerada em fazer com que o nome da minha Comunidade ou do meu ministério cresça em detrimento do único bem necessário: a edificação do Reino de Deus!

Vejo uma tentação frequente de irmãos se comparando uns com os outros, sofrendo com complexos de superioridade ou inferioridade; experimento em minha própria carne uma preocupação excessiva com a minha imagem.

Enquanto estivermos buscando os nossos próprios interesses, experimentaremos a estagnação espiritual. Não sairemos do lugar. Acredito que, para nos salvar, o Senhor irá nos dobrar e, se preciso for, nos humilhará (cf. Lc 1,52-52). Ele nos prefere assim, vazios de milagres e prodígios, do que dominados pelo orgulho e, consequentemente, caminhando para a perdição.

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Que Ele cresça e eu diminua

No entanto, não viemos a este mundo para viver para nós mesmos. Temos uma missão para cumprir! Por isso, creio que chegou a hora de “nos humilharmos sob a mão poderosa de Deus, para que, na hora oportuna, Ele nos exalte” (cf. 1Pe 5,6)! É preciso entrar na escola daquele que foi o maior entre os nascidos de mulher e com ele aprender a dizer: “importa que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).

Ouso falar da necessidade de uma “Revolução Copernicana Espiritual”: compreendamos de uma vez por todas que a nossa preocupação não deve estar girando em torno de nós mesmos, afinal, não somos o centro do mundo; Deus é o centro: dEle, por meio dEle, para Ele são todas as coisas. Orbitemos ao redor de Cristo, buscando unicamente a glória do Pai!

Como diz a música: nunca foi sobre nós, nem sobre o que podemos fazer; É tudo sobre Você, tudo para Você, Jesus. Clamemos a intervenção da graça sob a nossa carne marcada pelo pecado para que haja uma configuração de vontades e, dessa maneira, vivamos bem o primeiro mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas. Se o Senhor nos encontrar assim, vazios de nós mesmos e apaixonados por Ele, os sinais se multiplicarão, os milagres acontecerão e o avivamento em breve chegará! “Amém. Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).

E você, está disposto a embarcar nesta jornada comigo? Vamos juntos, unidos no Coração de Jesus!

Seu irmão, Pe. João Fernando
Missionário da Aliança de Misericórdia no Ceará

Bibliografia

1 – “Gloria Dei vivens homo” – Santo Irineu de Lião.

2- JOYNER, Rick. Mundo em chamadas. O Avivamento de Gales e suas lições para nosso tempo. São Paulo: Impacto Publicações, 2018. pp. 20-21.

3- JOYNER, Rick. Mundo em chamadas. O Avivamento de Gales e suas lições para nosso tempo. São Paulo: Impacto Publicações, 2018. pp. 21-22.

4- BARTLEMAN, Frank. A história do avivamento Azusa. São Paulo: Impacto Publicações, 2016. p. 58.

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