A luta para retirar as mães do lixo em Moçambique

Numa carta em forma de partilha a todos os benfeitores da fraternidade de Moçambique, os missionários partilharam uma experiência forte da perseverança na evangelização.

Entender as necessidades

Grupo de missionários e crianças em Moçambique
Missionários junto às crianças atendidas na Lixeira em Hulene.

Esta experiência diz respeito a verdadeira batalha de entrar no Lixão e sensibilizar as “mamanas” (mamães) que catam lixo com seus bebês, amarrados junto ao corpo com capulanas (espécie de tecido).

Pouco a pouco, dia após dia, estamos nos aproximando para tentar criar uma relação de confiança e amizade com elas, sem ferir seus costumes e cultura, a fim de auxiliá-las no cuidado da saúde dos seus bebês.

Temos 11 mamanas cadastradas no projeto. Uma gestante de 8 meses e 10 mamanas que tem bebês entre 3 meses de idade e 2 anos e meio. Todas trabalham catando lixo todos os dias na Lixeira de Maputo.

Entram com seus bebês na Lixeira em meio à fumaça, insetos, roedores, agentes tóxicos, lixo perfuro-cortante e extremamente insalubre.

Para tirá-las um dia da semana de dentro do lixão custa muito suor e tempo dedicado. A Rosana entra no lixão à procura delas, vai relembrando o dia e horário combinado, o compromisso de estarem presentes, a responsabilidade materna que elas precisam assumir para com a vida dos seus filhos, etc.

Centro Paraíso

Um exemplo é a mamana Cândida, mãe do Guede, um menino de apenas 7 meses de idade que não chega a pesar 7kg.

Com muito custo a mamana desistiu de trabalhar aquele dia na Lixeira e foi para o Centro Paraíso (como estamos a chamar agora a casa onde realizamos nossas atividades em Hulene – vale explicar bem esse nome numa outra oportunidade!).

Entretanto no decorrer do dia a criança apresentou vários episódios de diarreia e não tinha apetite. Ao final do dia já associava grande esforço respiratório, letargia, fraqueza e déficit de atenção. Ele não tinha nenhum tipo de secreção pulmonar ou constipação nasal, mas permanecia com a boquinha aberta lutando com muito sofrimento para respirar.

Louvado seja Deus, pois Ele colocou aquela mãe com aquela criança em nosso caminho naquele dia, para que se cumprisse sua promessa: “Farei de Jerusalém um júbilo e do meu povo uma alegria. Nela não se tornará a ouvir choro nem lamentação. Já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias“(Isaías 65, 19-20).

A caridade que transborda

Momento de oração na Lixeira-Hulene
Momento de oração na Lixeira-Hulene.

Era impossível deixar aquela mamana ir embora no final do dia apenas com orientações sobre ficar atenta aos sinais do bebê. Ela simplesmente não iria procurar o hospital sozinha se o quadro não melhorasse.

Deus realmente coloca um incômodo tão grande em nosso coração que talvez não dormiríamos em paz naquela noite nem em outras mais se não tivéssemos feito algo.

Já era quase noite, e nossa voluntária foi com essa mãe até a casa dela no Hulene para pegar os documentos da criança e corremos para a “paragem” (ponto de ônibus) na estrada tentar pegar uma chapa (transporte) para chegar ao hospital.

No caminho nos abordou uma outra mamana, chamada Mamá Paciência. Santo nome. Veio sorridente para nos saldar e ao caminhar conosco logo percebeu a gravidade da situação. Tomada de compaixão e extremamente materna, a Mamá Paciência ofereceu 100 meticais (moeda local, correspondente ao equivalente a quase 7 reais).

A Rosana quis recusar, pois conhece as necessidades que essa mãe tem, mas foi exortada por ela com uma firmeza e amor muito grande:

Mana Rosa, esta mamana está a sofrer com seu bebê. Ela não tem mãe, eu também não tenho mãe e sua mãe, Mana Rosa está muito longe lá no Brasil. Quem é mãe dela agora sou eu e você! Você está a andar com ela sem medir o seu tempo, e eu não posso ir com vocês ao hospital porque preciso agora entrar na Lixeira pra catar um pouco (de lixo).

Então aceita a minha pobre maneira de ser mãe, recebe o que tenho a oferecer e ‘tsutsuma’ com esse bebê pro hospital Mana Rosa! Famba lá!

Pressa para salvar vidas

Tsutsuma” dizem quando precisam correr, e “famba” é para ir logo. Maria que nos guiou a cada passo da estrada, ela que nos ensina a verdadeira maternidade…

Graças a Jesus e Maria o Guede foi atendido na emergência do hospital e apesar de difícil para pegar acesso venoso naqueles bracinhos e mãozinhas tão magrinhos e desidratados, logo infundiram bolsas de soro nele.

No outro dia já não tinha tão grande esforço respiratório, mas continuou com a luta contra a diarreia. Sua desnutrição e desidratação advém da vulnerabilidade e realidade social em que vive. A mamana Cândida também muito magra e ainda dá o peito para o Guede amamentar, apesar de quase não haver leite nela.

A realidade dessas pessoas que precisam entrar na Lixeira para catar é de extrema miséria. A cada dia, a cada situação que experienciamos com esse povo, só aumenta o clamor a Deus para providenciar o necessário e para nos usar com todo ardor como ponte de Misericórdia na vida de tantos.

Se você também deseja nos ajudar de alguma forma, não deixe de fazê-lo! A sua ajuda é preciosa e nos possibilita estender as mãos neste lado do mundo!

Que possamos sempre nos lembrar: todos, até os mais pobres tem algo para dar, como nos ensinou a mamá Paciência, e somos todos dependentes da misericórdia, como o Justino e o Manoel.

Deus abençoe você e estamos juntos!

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