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Zelo, vida consumida, Smeagol e um bom exame de consciência

O zelo por tua casa me consome” 

Logo nos primeiros capítulos de seu Evangelho, o apóstolo João nos narra um conhecido episódio da vida do Mestre. No início de Seu ministério, logo após o Seu primeiro sinal no casamento em Caná, quando dirige-se à Jerusalém e vê o grande comércio que acontecia às portas do Templo, Jesus faz chicotes com cordas e expulsa os vendilhões.

Sua atitude e estas suas palavras: “Não façais da casa de meu Pai um lugar de comércio”, trouxeram à memória daqueles que ali estavam, as palavras do salmista: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69, 9). Podemos, a partir deste breve versículo, fazer uma profunda reflexão e este é o meu convite a você neste nosso texto.

zelo pelo templo

O Zelo

Iniciemos nossa meditação pela definição da palavra zelo’ que, segundo o dicionário, significa: cuidado, diligência, ter grande afeição por alguém, e pode ser um sinônimo de “ciúmes por amor”.

Era tudo isso que Jesus sentia, a ponto de transparecer em Suas feições e atitudes ao dirigir-se ao Templo, a casa de seu Pai e o local de encontro com Deus e de oferecer-Lhe sacrifícios e orações. Jesus amava profundamente o Pai, e sentia zelo por tudo que aqui na terra referia-se a Ele.

Por isso, ao ver o desrespeito com o Templo, que havia se tornado um local de comércio e até mesmo de roubo por parte de alguns comerciantes, sentiu-Se inflamado por uma santa ira, e teve de ser enérgico para cuidar da casa de Seu Pai, expulsando dali aqueles que não O respeitavam.

Somos nós o templo do Espírito

O apóstolo Paulo nos ensina em uma de suas cartas que nós também somos “templos do Espírito Santo” (cf. I Coríntios 6, 19). Logo, se Cristo ardia em zelo por aquele Templo feito de pedras e que em pouco tempo seria destruído, quanto maior não deve ser o Seu cuidado e ciúme por nós, que somos Seus irmãos, membros do Seu corpo místico?

Ele tem cuidado de nós (cf. I Pedro 5, 7), nos lembra São Pedro, e esse cuidado é muitas vezes demonstrado pelas provações e trabalhos que passamos e que são permissões dEle. Essas tribulações são como aquele chicote de corda, que servem para expulsar de nosso interior o pecado e tudo aquilo que mancha a nossa alma, que é templo de Deus.

O Consumir

Uma outra palavra cheia de significado para nós é consumir, que significa: gastar por inteiro. Em outras traduções, encontramos nesse versículo a palavra devorar, substituindo o consumir. Ou seja, tal como um fogo que consome e devora a lenha ou o carvão, por exemplo, e deles nada deixa além das cinzas, assim era o amor que Jesus sentia, fazia-O consumir-Se por inteiro.

Mas o que levava Jesus a consumir-Se? Ao meditarmos os Evangelhos, encontramos a resposta a essa pergunta. Vemos em vários capítulos que o Senhor buscava estar a sós para orar, para estar em comunhão com o Pai e constantemente falava dEle aos discípulos e a quem O ouvia.

Ele não tinha onde reclinar a cabeça, mas andava por toda a região da Galiléia e arredores, suportando o calor, o frio e as estradas difíceis, somente para anunciar a Boa Nova sobre o Reino de Seu Pai. O amor pelo Pai O consumia. Jesus amava com amor intenso Aquele que O enviou até nós e fazia de tudo para servi-Lo e obedecê-Lo, a ponto de entregar Sua vida e experimentar a morte, para cumprir a vontade do Pai.

Jesus se consumiu por nós

Mas há também um outro amor que consumia o coração e a vida de Cristo, o amor pelas almas que lhe foram confiadas pelo Pai. Jesus se consumia de amor por cada um daqueles que Dele se aproximava. Não media esforços para atender aqueles que necessitavam, a ponto de muitas vezes não “ter tempo se quer para comer” (cf. Mc 6, 31). Ele consumia-Se de amor por cada um de nós.

Não estávamos lá para vê-Lo ensinar, nem quando estava carregando a cruz, mas todo o Seu sofrimento foi por cada um de nós. Na cruz, Jesus, pelo dom da visão beatífica concedida a Ele pelo Pai, enxergava a todos, aqueles que viveram antes dEle e os que viriam após Sua subida ao céu. Sim, Ele nos viu, sofreu por ver os nossos pecados, mas consumiu-Se mesmo assim, amando-nos pessoal e individualmente até o fim. Por Sua entrega fomos salvos e libertos da morte. Jesus se consumiu de amor por cada um de nós.

Reflexão

Diante de tudo isso, paremos um instante e pensemos em nossa vida. O que tem nos consumido? Com o que temos nos gastado? Por quem ou o quê temos zelado?

Recordemos dos dois grandes mandamentos que nos foram deixados pelo Mestre: amar a Deus com todo nosso coração, com todas as nossas forças e todo o nosso entendimento e ao próximo como a nós mesmos. O que tem, então, nos consumido mais: será que é o amor a Deus e ao próximo ou é o amor a nós mesmos?

Para respondermos a tudo isso temos que fazer um sincero exame de consciência. Com o que temos gastado o nosso tempo?

É importante lembrarmos que tempo é questão de prioridade. Sempre conseguimos tempo para aquilo que realmente queremos fazer e priorizamos.

Quanto tempo temos dedicado à oração, à meditação da Palavra, a estarmos com Deus?

E com o próximo, em visitar aquelas pessoas que estão doentes ou que sabemos que precisam de nossa atenção?

E para rezarmos pelos outros, os que conhecemos, mas também por aqueles que não conhecemos mas que sabemos que necessitam de nossa oração, como aqueles que vivem em países em conflito?

Quantas vezes podemos ser comoSmeagol”

No grande clássico “O senhor dos anéis, vemos as consequências de se consumir por algo que só possui um valor aparente. Vemos como o Smeagol, que era um Hobit forte e inteligente, encontrou um anel, que brilhava e exalava um poder sedutor, deixou-se levar pela sua beleza e acabou sendo consumido por ele.

Aquilo que, apenas pela aparência, era “precioso” para o Smeagol, foi a causa de sua ruína e por fim (alerta de spoiler), da sua morte.

Coisas como trabalho, estudo, descanso e entretenimento são importantes, mas são também passageiros. Somente os bens espirituais são perenes, não passam com o tempo. Então, temos que saber separar bem o tempo que temos, para darmos atenção aquilo que é realmente importante.

Aqui vale pensar em quanto tempo temos gastado com coisas não são importantes, como as maratonas de séries, as redes sociais, as conversas irrelevantes, os programas de TV…

Zelo

Se Jesus voltasse agora?

Algo que ajuda a pensarmos sobre como investir bem o nosso tempo, é responder essa pergunta: se o Senhor voltasse agora, o que gostaria de estar fazendo ao me encontrar com Ele? Será que na volta de Jesus gostaríamos de estar esparramados no sofá vendo memes na internet ou fazendo algo mais interessante, como lendo sobre a vida de um santo, por exemplo?

Temos um Senhor que zela por nós, que nos ama profundamente e que se consome, tal como uma vela que queima até o fim, por nós. Saber desse amor tem de nos tirar do estado de inércia que muitas vezes nos encontramos.

Por Ele, nos consumir de amor

Caritas Christi urget nos”, o amor de Cristo nos impele, nos fala o apóstolo. (II Coríntios 5, 14). O amor que o Senhor nos tem deve nos impelir a correspondê-Lo, a querer nos consumir por Ele e pelas almas. Que a Virgem Maria, que consumiu a sua vida para cuidar do Filho de Deus, nos ajude a nos deixarmos gastar pelo verdadeiro e precioso tesouro que é o amor a Cristo e aos irmãos.

Fernando Silva
Seminarista diocesano e amigo da Aliança de Misericórdia no Ceará
(Texto inspirado em uma homilia do padre João Fernando, da Comunidade Aliança de Misericórdia)

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