Parricídio – o assassinato do pai na sociedade atual

A figura paterna na história

A figura do Pai-Mãe na família não surgiu com o aparecimento dos primeiros humanos na terra. O homem, no começo, quando encontrava um grupo passava a ser um “pai produtor”. Não se criava laços afetivos com aquele grupo. Esses grupos eram nômades e não fixavam moradia.

Depois de certo tempo, a mulher passou a fazer com que o homem ficasse no grupo, fazendo com que se criasse algum laço afetivo com o grupo. Esse homem passou a ser um “pai provedor”. Ele caçava e procurava cuidar daquele pequeno grupo, enquanto a mulher cuidava dos filhos.

Na mitologia grega, há a figura de um deus que joga o filho para alto e o pega novamente. Isso se tornou o símbolo do Pai. Todo Pai brinca dessa forma com o seu filho. Estabelece-se uma relação de confiança do filho com o Pai.

Com o passar dos tempos a família se constituiu com o modelo de: Pai, Mãe e Filhos e se tornou a “célula mãe” da sociedade. Não obstante, sobretudo, com base nas idéias iluministas, que nasceram durante a Revolução Francesa, surge a ideia do homem livre, emancipado. As revoluções feministas e tantos outros movimentos que buscam, acima de tudo a liberdade.

O sonho de uma emancipação total impele o homem moderno a querer uma realidade totalmente iluminada pelo conceito, em que se possa exprimir o poder da razão. Em suma, isto quer dizer que onde triunfa a razão, aí se levanta o sol do porvir. Ou seja, o tempo da modernidade é o tempo da luz.

A sociedade sem pai

Menino chora

É dentro desse contexto, e seguindo uma ambição ideológica que hoje se fala de uma “sociedade sem pais”, onde não existem relações verticais, consideradas sempre de dependência, mas apenas horizontais, de paridade e reciprocidade. Outro nome dado a essa sociedade sem pais é “parricídio”.

A crítica à figura do “pai patrão” vai desaguar assim na pretensão da radical negação de Deus: tal como não deve existir na terra nenhuma paternidade que crie dependência, assim também não pode haver no céu nenhum Pai de todos. Como se não houvesse outro mundo, apenas esta história.

A única idéia do divino que pode subsistir diante do tribunal da razão adulta parece ser aquela de um Deus morto. O ser humano sem Deus perde a referência do bem, do amor. Se Deus não existe eu posso fazer o que quiser.

O assassínio coletivo do Pai se consuma na convicção de que o ser humano deverá gerir por sua própria conta a vida, construindo o próprio destino apenas com as próprias mãos.

Essa idéia da não existência de Deus é corroborada pelo movimento do ateísmo moderno, encabeçada por Richard Dawkins, que lançou um livro intitulado “Deus um delírio”. Há ainda a crítica a religião, colocando-a no epicentro das grandes revoltas do mundo, como se Deus fosse o responsável por elas. Ora, não é isso que a religião prega. A religião prega o caminho do amor, da verdade e da vida. Fora dessa realidade não se pode falar de uma verdadeira religião.

Todos buscamos um Pai

Diante do mistério do mundo, na busca e no anseio por um Pai-Mãe no amor que seja assim para todos, o cristianismo se encontra caminhando em companhia das outras experiências religiosas da humanidade, para chegar finalmente a integração final efetuada pelo Senhor no Shalom escatológico, reino realizado de Deus, Pai-Mãe de todos.

Quando surgiu a tecnologia dos bebês de proveta, uma das coisas exigidas era que não se revelasse a identidade do pai. Anos depois, na idade da razão, todos os bebês de proveta queriam saber quem eram seus pais. Como já foi dito, nós temos essa necessidade. Está dentro de nós.

A moderna “sociedade sem pai” não gera filhos mais livres e mais iguais, mas produz dependências dramáticas daqueles que a cada passo se apresentam como os “substitutos” do pai: o “chefe”, o “partido” etc. Tudo isso gera uma crise de sentido e nós estamos assistindo isso na sociedade atual.

O nada da falta de amor

O que parece triunfar, em meio a essa crise, é a indiferença, a perda do gosto para procurar as razões últimas do viver e do morrer humano. Perfila-se deste modo o extremo rosto do século que chega ao fim: o rosto do niilismo.

O niilismo não é o abandono dos valores, a renúncia a viver alguma coisa pela qual se valha a pena viver, mas um processo mais sutil: ele priva o ser humano do gosto de se empenhar por uma razão mais alta, despoja-o daquelas motivações fortes que a ideologia ainda parecia oferecer-lhe.

A doença que hoje mais se alastra é a falta de “paixão pela verdade”: este é o rosto trágico da pós modernidade.

Assim a “sociedade sem pais” perseguiu o sonho da emancipação e para emancipar-se pensou em assassinar o pai. O fruto amargo dessa emancipação totalitária e o vácuo que ela deixou, fez perceber-se uma nova necessidade de um pai-mãe acolhedor na liberdade e no amor.

A nostalgia de um pai-mãe capaz de fundar ao mesmo tempo a dignidade de cada pessoa, a liberdade de todos, o sentido da vida: o rosto do pai-mãe no amor. Diante desse cenário, cabe a nós, como discípulos e missionários, como família cristã, mostrar ao mundo o rosto humano, amoroso, misericordioso desse Pai-Mãe que tanto nos ama.

Todos temos necessidade de um Pai e de uma Mãe – “Pai-Mãe” – comum que nos liberte da prisão da solidão, do individualismo e que ofereça um horizonte pelo qual se possa esperar e amar.

Diácono Paulão, diocese de Belo Horizonte

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