A Vocação de um Profeta

Isaías: O irrevogável chamado de Deus e a generosa resposta do homem – um chamado para a vida! “Quem enviarei? E quem irá para nós? Respondi: Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8)

A resposta ao chamado

De início, imagino que estas palavras tão conhecidas e frequentemente usadas nos ritos de consagração de diferentes chamados, nos fizeram recordar o dia do nosso primeiro “SIM”, e o momento em que anualmente nos voltamos diante de Deus e do Seu povo para renovar nossa entrega, respondendo-O generosamente. De verdade, são palavras que emocionam.

Toda vocação é uma resposta ao chamado do “Totalmente Outro”: “não fostes vós que me escolhestes, eu vos escolhi e vos constituí para que andem e deem fruto e o fruto de vocês permaneça” (Jo 15,16). Dessa forma, é possível afirmar que não cabe a mim escolher a vocação. Ela é uma escolha de Deus. Eu fui escolhido.

A minha liberdade é o instrumento que me possibilita responder, acolhendo ou rejeitando este apelo de Deus. O bom uso da minha liberdade pode evidenciar a qualidade, a intensidade e a generosidade da minha resposta.

Mesmo com as fraquezas, Deus nos chama

A resposta do profeta Isaías foi plena, determinada, inteira, mesmo tendo consciência de suas próprias misérias! Se mergulharmos no texto bíblico, veremos que o profeta tinha consciência de que era um “homem de lábios impuros” (Is 6,5) e de “morar no meio de um povo de lábios impuros” (Is 6,5), porém, mesmo conhecendo as suas debilidades e os seus limites, se abandona sem reservas e responde: “aqui estou! Envia-me!” (Is 6,8).

A resposta de Isaías parece criar eco na resposta livre e humilde da virgem Maria, diante da visita do anjo Gabriel: “eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a Sua Palavra!” (Lc 1,38). Esta resposta é a fonte de uma alegria indizível e eterna.

“Quem enviarei? E quem irá para nós? Respondi: Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8)

A tristeza do “não”

Ajudar um jovem a descobrir e responder ao seu chamado, significa proporcionar-lhe sua mais profunda realização como pessoa, mas sobretudo, como filho de Deus. O chamado é sempre um convite à alegria: “alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1, 28). Pode-se afirmar que a recusa do chamado à uma vida de entrega radical é fonte de uma grande tristeza.

No Evangelho segundo São Marcos, nos deparamos com a história de um jovem rico que não conseguia desprender-se dos seus bens para seguir Jesus: “ele foi embora triste, pois tinha muitos bens” (Mc 10,22).

É triste não descobrir o sentido da própria existência e não alcançar a meta do próprio existir. É penoso não descobrir que não apenas tenho uma missão na vida, mas que minha vida mesma é uma missão, única e insubstituível.

Como fazer um bom discernimento?

A vocação do profeta Isaías nos ajuda a descobrir o segredo de um bom discernimento, indicando-nos alguns passos essenciais para a nossa vida. Vejamos:

1 – Saber ver, contemplar, ouvir o Senhor. É impossível discernir o próprio chamado sem uma experiência pessoal, impactante e viva da presença do Senhor. Tornar-se um discípulo de Jesus é consequência de um encontro que nos permite conhecê-lo e apaixonar-se por Ele.

Constatamos no livro da profecia de Isaías, que ele “viu o Senhor” (Is 6,1ss). Ele viu “a Sua glória”, ele viu “os Serafins”, ele “contemplou a Santidade de Deus”, de forma pessoal e extraordinária: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos e Sua glória enche toda a terra”…. Ele escutou a voz de Deus que dizia:

“Quem enviarei? E quem irá para nós? Respondi: Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8)

Madre Teresa escutou Jesus dizendo-a: “Tenho sede!”

São Francisco escutou Jesus dizendo: “Francisco, restaura a minha Igreja que está em ruínas”.

E você, o que escutou?

Mesmo quem não teve experiências tão particulares como Isaías, sempre percebeu o chamado à luz de uma profunda experiência do Amor do Pai: “Ele me ama! Me ama! Ele morreu por mim e quero viver por Ele! Dessa forma, preciso ver Jesus, deixar-me iluminar pela Sua glória: ‘os que olham para Ele estão radiantes de alegria’” (cf. Sl 34,5).

2 – Saber reconhecer a minha miséria. Um chamado autêntico é sempre acompanhado por um profundo autoconhecimento, por uma experiência de conversão, de “quebrantamento do coração”.

Ouso dizer, de um quebrantamento autêntico. Esta experiência não é, porém, acompanhada pelo peso do “senso de culpa” e da “acusação” do maligno, que quer convencer-me da minha indignidade, incapacidade e impossibilidade de seguir Jesus.

Pelo contrário, o arrependimento me leva a chorar perante a Misericórdia do Senhor, que é um ‘amor-verdade-compaixão’ que fixa os meus olhos e me confirma, renovando minhas forças e minha confiança no Seu poder que se manifesta em minha fraqueza (cf. Gl 2,20).

Assim fez Jesus quando, após a tríplice negação de Pedro, fixou-o com amor. Ele orou por Pedro. Ele não desistiu de Pedro, e tenho certeza que não desistirá de você.

Não tenha medo do autoconhecimento, de reconhecer e revelar as suas fraquezas, de chorar suas misérias. Lembre-se sempre do que dizia Santo Agostinho: “quem não confessa sua miséria, afasta de si a Misericórdia do Senhor”.

Isaías reconhece que o Deus que ele experimentou e conheceu está sempre pronto para vir em nosso socorro e purificar os lábios de toda a impureza.

Coração misericordioso

Saber ver e compadecer-se do sofrimento do povo que o Senhor nos confia. Muitos santos escolheram em sua missão este caminho de santidade e realização humana: enfrentar corajosamente o sofrimento junto ao povo que lhes foi confiado, como também, enfrentar as experiências duras e dramáticas da vida que chegam em momentos inesperados. Não podemos esquecer-nos deste caminho: toda vocação é um encontro de vontades.

É o encontro do chamado irrevogável de Deus com a livre e generosa resposta do homem em favor de um povo que tem fome e sede de Deus. Aquele que é chamado a dar o seu SIM, tornar-se-á sempre uma resposta de Deus para os homens.

Queridos, só posso agradecer a Deus pelo SIM de cada um de vocês! Quero humildemente convidá-los a unirmo-nos a Virgem Mãe de Deus, nossa mãe e fundadora, e dizermos juntos a uma só voz: “eis aqui a serva (o servo) do Senhor! Faça-se em mim segundo a Sua Palavra!” (Lc 1,38).

Permaneçamos unidos e obedientes às Palavras do Senhor, fazendo tudo aquilo que Ele nos disser (cf. Jo 2,5).

Os abençoo!

Pe. João Henrique

Fundador

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