A culpa é de quem? Procurando respostas à barbárie de Suzano

O massacre de Suzano chocou todo o Brasil e levantou diversas questões acerca da segurança nas escolas, segurança pública e bullying. Todavia, o que muita gente ignora é que uma ação sempre é precedida pelo consentimento e que há fatores mais profundos a serem discutidos.

 A procura de respostas

Muro da Escola Raul Brasil-Suzano.

Não vamos aqui descrever o crime que foi de maneira exaustiva repetido pela mídia. Infelizmente, pela falta de respeito e sensibilidade, vídeos e fotos das execuções estão expostos em diversas redes sociais. Essa forma superficial de lidar com o sofrimento faz com que ignoremos os fatores fundamentais deste caso.

Bandeiras políticas e ideológicas foram levantadas completamente fora de tempo. A dor de quem perdeu um ente querido é maior. A grande questão é: o que leva um ser humano a levantar a mão contra outro e tirar-lhe a vida?

Vamos às Escrituras:

“Ao fim de algum tempo, Caim apresentou ao SENHOR uma oferta de frutos da terra. Por seu lado, Abel ofereceu primogênitos do seu rebanho e as suas gorduras. O SENHOR olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta. Caim ficou muito irritado e andava de rosto abatido.

O SENHOR disse a Caim: ‘Porque estás zangado e de rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas deves dominá-lo’.

Entretanto, Caim disse a Abel, seu irmão: ‘Vamos ao campo’. Porém, logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre o irmão e matou-o”. (Genêsis 4, 3c-8)

O primeiro fratricídio da história tem elementos que podem nos ajudar nesta meditação. O sentimento que foi concebido por Caim é de inveja. Esta palavra está ligada à raiz do verbo “ver”, ou seja, ele enxergava o irmão com olhos diferentes.

Permitir o mal

Caim era o mais velho e foi destronado pela chegada de Abel, “não tinha mais” a atenção de seus pais e nem de Deus. A Bíblia oferece um panorama da visão distorcida de Caim para nos alertar do perigo.

“Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te”.

O rosto abatido de Caim é expressão de sua tristeza, raiva e ciúmes; nada pode consolá-lo uma vez que está cabisbaixo. Uma pessoa que anda a olhar para baixo sem encarar ninguém nos olhos, não enxerga mais a realidade a sua volta. Somente a sua visão de mundo, sua versão dos fatos são válidas.

Agora está à mercê de seus instintos.

Ele mata seu irmão de forma premeditada e fria sem se importar que é sangue do seu sangue, com as lágrimas de seus pais ou com o olhar de Deus sobre aquele ato. É uma pessoa desprovida de sensibilidade que não segue outras regras a não ser as suas.

Alguém pode questionar: “Ah, ele se sentiu desprezado por Deus“. Será mesmo que Deus o desprezou? Vemos um diálogo maior do Senhor com Caim do que com Abel; ele ouve os conselhos de Deus que o alerta; Ele o cerca para não perdê-lo.

Todavia a vontade de Caim está corrompida pelo pecado, seu irmão já está “morto” dentro dele, bastava agora eliminá-lo fisicamente e ele estava decidido a fazê-lo.

A Morte do Inocente

Investigações apontam que os jovens planejaram o atentado um ano antes. Ou seja, havia tempo para desistir ou alimentar essa vontade. Eles andavam “com o rosto abatido”, calados, reclusos em seus mundos, com uma raiva que aos poucos ficou no comando de suas decisões.

O que faltou? O que poderia ter evitado tal ação? São perguntas que ficarão sem respostas. A morte de um inocente sempre deixa o “ar pesado” e uma sensação de que as coisas não estão bem.

Vide a celebração que estamos prestes a viver, a Paixão de Cristo. Até hoje, mais de 20 séculos depois, a morte de Jesus causa dor e estranheza pela forma cruel com que foi feita.

Onde está Deus?

O choque diante dessas tragédias nos fazem dar voltas pensamentos e a falta de resposta pode até nos deixar abatidos. Todavia, digo com toda a certeza, o que falta à nossa sociedade é um Deus.

Porém, a morte de um inocente não fica impune: “O Senhor diz a Caim: ‘Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim” (Gn 4,10).

Devemos sim recorrer à justiça humana para punir os culpados e buscar maneiras para evitar outros episódios como este, todavia devemos acima de tudo esperar em Deus, oferecer a Ele essa dor, unida à cruz do Seu Filho para que este sofrimento seja redentor.

A Cruz de Jesus é a nossa resposta frente a todo sofrimento.

Em Deus, o sangue dos inocentes recebe uma eficácia que contraria os efeitos destrutivos da violência. A sua aparente derrota inaugura um movimento de libertação que culmina na cruz de Cristo“. (Carta da Comunidade Taizé, O Sofrimento dos Inocentes)

Isso não é algo inútil. Nós enlouquecemos sem Deus:

“O ser humano carrega um buraco do tamanho de Deus dentro de si”, Dostoievsky.

Isto nos leva também refletir muitas coisas a respeito do rumo que estamos dando para as nossas vidas, a nossa sociedade e que mundo estamos deixando para as gerações futuras. Como cristãos temos a missão de temperar a terra com o sal da fé e iluminá-la com a luz da caridade.

Pensar e agir como discípulos de Cristo, sem negar a cruz é a nosso maior desafio numa sociedade que se entregou à bestialidade e à barbárie.

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