“Convertei-vos e crede no Evangelho”: O Verdadeiro Sentido das Cinzas
- 17 de fevereiro de 2026
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A Quarta-feira de Cinzas marca o início do tempo da Quaresma na Igreja Católica e nos introduz em um profundo caminho de renovação espiritual. Ao recebermos a imposição das cinzas, ouvimos palavras que ecoam com força no coração: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Essa frase não é uma ameaça, mas um convite cheio de esperança. É o chamado amoroso de Deus que nos recorda quem somos e para onde devemos voltar.
Neste tempo de graça, a Igreja nos conduz a refletir sobre o verdadeiro significado espiritual das cinzas, que vai muito além de um gesto simbólico externo. Trata-se de um apelo à transformação interior, à confiança na misericórdia divina e ao reencontro com nossa identidade de filhos amados do Pai.
O que significa “Convertei-vos”?
A palavra “converter-se” significa mudar de direção, voltar-se para Deus, abandonar o pecado e retomar o caminho da vida nova. Quando ouvimos “Convertei-vos”, não estamos sendo acusados, mas chamados. Deus não nos aponta o dedo; Ele nos estende a mão.
A conversão cristã não nasce do medo, mas do amor. É resposta ao amor de um Pai que nunca desiste de seus filhos. Ao longo da história da salvação, vemos Deus sempre oferecendo uma nova oportunidade de recomeço. A conversão é, portanto, retorno ao coração misericordioso do Pai.
Para a espiritualidade da Aliança de Misericórdia, essa realidade é central: fomos alcançados pela misericórdia para sermos também instrumentos dela. Converter-se é permitir que o amor de Deus cure nossas feridas e nos envie em missão, especialmente junto aos pobres e sofredores.
“Crede no Evangelho”: Um Chamado à Confiança
A segunda parte da exortação é igualmente importante: “crede no Evangelho”. Converter-se não é apenas abandonar algo negativo, mas aderir plenamente à Boa Nova de Jesus Cristo. O Evangelho é a notícia de que somos amados, perdoados e chamados a uma vida nova.
Crer no Evangelho é confiar que a graça é maior que o pecado. É acreditar que a última palavra sobre nossa vida não é o erro, mas a misericórdia. Por isso, a imposição das cinzas não é um rito de tristeza, mas de esperança. Reconhecemos nossa fragilidade — “somos pó” —, mas sabemos que esse pó é amado e redimido por Cristo.
O Significado Espiritual das Cinzas
As cinzas, na tradição bíblica, são sinal de arrependimento e humildade. Elas nos lembram nossa condição humana limitada e passageira. Contudo, na liturgia da Igreja, esse gesto ganha um sentido ainda mais profundo: é o ponto de partida para um caminho de transformação.
O verdadeiro significado espiritual das cinzas está no coração que se abre ao arrependimento sincero. Arrepender-se não é se humilhar de maneira destrutiva, mas reconhecer a própria necessidade de Deus. É reencontrar a verdade sobre si mesmo.
Quando nos arrependemos, recuperamos nossa dignidade. O pecado nos desfigura, mas a misericórdia nos restaura. A conversão é, assim, um retorno à casa do Pai, onde somos revestidos novamente da dignidade de filhos.
Arrependimento: Reencontro com a Dignidade de Filhos
Muitas vezes, associamos arrependimento à culpa pesada e sem saída. No entanto, na perspectiva cristã, o arrependimento é libertador. Ele nos permite deixar para trás aquilo que nos afasta de Deus e dos irmãos.
A Quaresma, iniciada na Quarta-feira de Cinzas, é tempo favorável para buscar o sacramento da Reconciliação, intensificar a oração, praticar o jejum e a caridade. Essas atitudes concretas expressam o desejo sincero de viver a conversão.
Ao ouvir “Convertei-vos e crede no Evangelho”, somos convidados a um movimento interior: sair da autossuficiência e voltar ao amor do Pai. Não se trata de tristeza, mas de esperança; não é condenação, mas promessa de vida nova.
Que neste tempo quaresmal possamos acolher profundamente o chamado à conversão, permitindo que o Senhor transforme nosso coração. Das cinzas nasce um caminho de renovação. Da fragilidade reconhecida floresce a graça. E, ao crer no Evangelho, redescobrimos a alegria de sermos filhos amados e enviados a testemunhar a misericórdia no mundo.
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