PDM Março – VIVENDO NO MUNDO, NÃO SENDO DO MUNDO: SUPERANDO A DISCÓRDIA PELA GRAÇA DA UNIDADE.
Eu lhes dei a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como eu não sou do mundo. Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo (Jo 17,14-16).
Depois de aprofundarmos o mistério da unidade trinitária e o anseio humano por relação, somos convidados agora, a confrontar uma das tensões mais significativas da vida cristã: como viver no mundo sem ser do mundo. Jesus, em sua Oração Sacerdotal, não pede que seus discípulos sejam retirados da realidade terrena, mas que sejam guardados do maligno, preservando sua identidade em meio a um ambiente que pode ser hostil aos valores do Evangelho. Este é o desafio da santidade encarnada, onde a graça da unidade se torna a força para superar a discórdia e testemunhar a paz de Jesus.
“Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno”
Os versículos do Evangelho de São João 17,14-16 nos colocam diante de uma paradoxal e essencial condição do discípulo de Cristo: estar no mundo, mas não ser do mundo. Jesus reconhece que Ele mesmo, e, por consequência, os seus seguidores, não compartilham dos valores e da lógica que frequentemente governam o mundo, aqui entendido como o sistema de valores, ideologias e poderes que se opõem ao Reino de Deus.
Jesus entregou a seus discípulos a Palavra do Pai que é a verdade e o amor (Jo 17,14). Essa Palavra os distingue e os separa do mundo que “odiou” a Jesus. O “ódio” do mundo não é pessoal, mas uma rejeição aos princípios do Reino que confrontam as trevas. Contudo, Jesus não ora para que sejam tirados do mundo. Ao contrário, Ele os envia como missionários, sal e luz, agentes de transformação, sinais da sua Misericórdia. A missão exige a presença, santidade, distinção. O desafio é manter a identidade cristã íntegra sem se isolar ou se alienar da realidade em que se vive. O próprio Jesus viveu essa tensão, participando da vida humana em plenitude, mas nunca cedendo às tentações do poder mundano ou da glória fugaz ou momentânea.
Esta tensão é uma constante na história da Igreja. O Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, adverte: “A separação que muitos experimentam entre a fé que professam e a sua vida quotidiana deve ser considerada como um dos mais graves erros do nosso tempo” (GS, 43). Este erro se manifesta quando o cristão se conforma passivamente aos valores mundanos. Em contrapartida, São Josemaría Escrivá, um santo contemporâneo que enfatizou a santificação do cotidiano, nos recorda que “um cristão [está] metido no mundo, mas não do mundo (ESCRIVÁ, Cartas I). Ele nos ensina que a verdadeira santidade não reside na fuga, mas na capacidade de transformar o próprio ambiente pelo testemunho autêntico da fé e da caridade, vivendo plenamente os valores do Evangelho nas estruturas da vida secular. O nosso caminhar, portanto, é um equilíbrio dinâmico entre o engajamento na realidade e a firmeza na identidade cristã, sempre guardados pelo Pai contra o maligno (CAM, 8).
“Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno”
O mundo do qual não somos se manifesta concretamente nas diversas formas de discórdia, desunião e violência que marcam a história humana e a sociedade contemporânea. A lógica do “olho por olho, dente por dente” (lex talionis) é uma tentação constante, um reflexo da resposta humana caída ao mal.
A raiz da discórdia reside na separação de Deus e do próximo, fruto do pecado original. A autossuficiência, o egoísmo, a busca desenfreada pelo poder e o desprezo pela dignidade alheia são as sementes que geram a fragmentação. No Antigo Testamento, a lei do talião “olho por olho, dente por dente”, embora representasse um avanço ao limitar a vingança, não era a plenitude do amor. Jesus, em seu Sermão da Montanha (Mt 5,38-48), eleva o patamar, pedindo o amor aos inimigos e a entrega da outra face. Ele não veio para abolir a lei, mas para aperfeiçoá-la através do amor.
Santo Agostinho, em sua obra “a Cidade de Deus”, analisa profundamente a condição humana e a busca pela paz. Ele contrasta a “cidade terrena”, movida pelo amor-próprio até o desprezo de Deus, com a “Cidade de Deus”, edificada sobre o amor a Deus até o desprezo de si: “dois amores fundaram, pois, duas cidades: a terrestre, o amor de si até o desprezo de Deus; a celeste, o amor de Deus até o desprezo de si. Aquela glorifica-se em si mesma, esta glorifica-se no Senhor. Aquela tem a cupidez por glória; esta, a caridade” (SANTO AGOSTINHO, Cidade de Deus, XXVIII, p. 1319-1320). Santo Agostinho argumenta que a desordem e a discórdia são intrínsecas à cidade terrena quando se afasta de seu verdadeiro fim. A tentação do “olho por olho” é, em última instância, uma falha em confiar na justiça divina e uma incapacidade de transcender o ciclo de violência. Superá-la exige uma conversão do coração, uma escolha radical pelo caminho de Cristo que, diante da injustiça, respondeu com o perdão e o amor oblativo na Cruz, desarmando o ódio.
Diante da fragmentação e da discórdia, a resposta do discípulo de Cristo é a paz que Ele nos oferece – uma paz que o mundo não pode dar (Jo 14,27) – e o amor fraterno que se torna o sinal distintivo dos seus (Jo 13,35). A paz de Cristo não é apenas a ausência de conflitos, mas uma plenitude de bem-estar (shalom), uma harmonia interior e exterior que brota da união com Deus. Esta paz se traduz em amabilidade, concórdia e misericórdia nas relações humanas. A amabilidade desarma o outro; a concórdia busca o que une, em vez do que separa; e a misericórdia estende a mão para curar as feridas, acolher o fragilizado e perdoar o ofensor. Esses são os antídotos divinos para a toxicidade da discórdia, pacificando corações e ambientes. É a vivência do “misericordiar” que se torna visível (CAM, 12).
Quando a Palavra do Pai nos guarda, como Jesus pede em Jo 17,15, somos capacitados a irradiar essa paz e esse amor. A Aliança de Misericórdia, nossas famílias e locais de trabalho podem se tornar pequenos oásis onde a paz de Cristo reina, oferecendo um contraste luminoso à hostilidade do mundo. Isso não significa passividade, mas uma força ativa que constrói pontes onde há muros, e semeia reconciliação onde há ressentimento.
“Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno”
A promessa de Jesus de “não ser do mundo” não é uma renúncia à felicidade, mas um convite a encontrá-la em sua forma mais autêntica e duradoura. A verdadeira alegria e plenitude se encontram na harmonia com Deus e com o próximo, refletindo a comunhão trinitária.
O anseio humano por felicidade é inato, mas muitas vezes buscado em caminhos que levam à frustração e à solidão. O mundo oferece felicidade em bens materiais, em poder, em prazeres passageiros, que frequentemente geram competição, inveja e discórdia. A felicidade prometida por Cristo, ao contrário, reside na doação, no serviço, no perdão e na unidade. Estar “enxertado em Cristo” nos conecta à fonte da vida, e ser “um como nós” nos leva à plenitude da comunhão. A verdadeira alegria é encontrar-se no Amor que é Deus e vivê-lo nas relações com os irmãos. É uma felicidade que não se esgota, porque participa da eternidade de Deus.
O Padre Raniero Cantalamessa, em suas meditações sobre a paz, frequentemente sublinha a profunda conexão entre a paz interior que nasce da união com Deus e a capacidade de viver em concórdia com os outros. Quando falamos de paz precisamos compreender que a paz não é primariamente uma conquista externa, mas um dom que emerge de um coração reconciliado com Deus. A “paz de Cristo” (Jo 14,27) é a paz que Ele conquistou em Si mesmo, através de Sua obediência ao Pai até a Cruz. Ele nos oferece essa paz como fruto do Espírito Santo. Quando uma pessoa encontra essa paz interior através da união com Deus, pela oração, pelos sacramentos e pela conformidade à Sua vontade, ele naturalmente irradia essa paz para o ambiente ao seu redor. Essa paz interior é a base para a capacidade de suportar as adversidades, de perdoar as ofensas e de promover a concórdia, mesmo em situações de conflito. É a paz que permite a cada um de nós cristão, membros da Aliança de Misericórdia, “estar no mundo” sem ser dominado por suas discórdias, atuando como um pacificador (CANTALAMESSA, p. 31-34).
“Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno”
Em síntese, os versículos de João 17,14-16 que meditamos agora ressoam como um chamado urgente e uma promessa confortadora para a vida do discípulo. Viver no mundo sem ser do mundo é um desafio contínuo, uma batalha espiritual que Jesus já venceu e que nos convida a participar de Sua vitória. O “Pai santo” nos guarda do maligno, não nos isolando, mas fortalecendo-nos em Sua Palavra para que a discórdia mundana não nos contamine. Que, conscientes da graça da unidade trinitária em nós, possamos ser, cada dia, mais instrumentos da paz de Cristo e do amor fraterno, superando o “olho por olho” pela lógica do Evangelho e testemunhando, assim, que a verdadeira felicidade reside na comunhão com Deus e com os irmãos (CT, 1).
PROPÓSITOS CONCRETOS:
Pessoal: o verdadeiro discípulo de Jesus é guardado no mundo e chamado a superar a discórdia vivendo a unidade. Portanto, cada membro da Aliança de Misericórdia é chamado a encarnar a mensagem de Cristo, vivendo sua fé de forma autêntica e corajosa em meio às realidades do dia a dia, sendo sal e luz sem se deixar corromper.
- Fazer o exame de consciência e discernimento diário acerca das mentalidades oferecidas pelo mundo para nos afastar da Verdade. Desenvolver o hábito de um breve exame de consciência diário, refletindo sobre as influências recebidas do mundo (mídias, conversas, ambições) e como elas se alinham ou se opõem aos valores do Evangelho. Perguntar-se: “em que aspecto estou sendo ‘do mundo’ em vez de ser guardado por Cristo?” Meditar sobre a Palavra de Jo 17,14-16 que nos foi dada como bússola para distinguir o que é de Cristo e o que é do mundo, e sobre a proteção do Pai contra o maligno (EAM, art. 4, §3).
- Vivenciar a prática consciente do perdão e da resposta ao mal com o bem. Diante de pequenas ou grandes ofensas, resistir à tentação da lógica do “olho por olho”. Cultivar a capacidade de perdoar e de responder com caridade, concórdia ou misericórdia, buscando desarmar a discórdia em vez de alimentá-la. Isso pode começar com pequenas atitudes (no trânsito, trabalho, na fraternidade, em casa).
- Buscar o cultivo da paz interior através da unidade com Jesus. Priorizar momentos de oração pessoal, Adoração Eucarística ou leitura da Palavra que ajudem a cultivar a paz de Cristo no coração. Reconhecer que essa paz interior é o antídoto mais eficaz contra a agitação e a discórdia externas, e que ela nos capacita a ser pacificadores.
- Estabelecer testemunho de valores evangélicos. Você pode identificar uma ou duas áreas da vida onde os valores do mundo são predominantes (ex.: ética no trabalho, uso das redes sociais, honestidade nas relações) e intencionalmente escolher viver e testemunhar os valores do Evangelho, mesmo que isso signifique ir contra a corrente ou enfrentar incompreensão.
Comunitário: nós somos um corpo guardado para a missão. O Movimento Aliança de Misericórdia, como comunidade de discípulos, é chamado a ser um espaço onde a unidade é vivida e testemunhada, um sinal visível da vitória de Cristo sobre a discórdia do mundo.
- Organizar momentos de partilha em pequenos grupos sobre o “discernimento cristão no mundo atual”. Como temos vivido os valores cristãos diante do mundo contemporâneo marcado pelo consumismo, individualismo e relativismo. Quais são os contrastes com os princípios do Evangelho? Nossa linguagem é cristã ou já está mundanizada?
- Priorizar momento de oração de perdão pautados nas Palavras de Jesus. Buscar extinguir os conflitos e desavenças que possa existir entre os membros. (Que esses espaços sejam guiados pela misericórdia e pelo amor fraterno, buscando a restauração das relações e a superação da lógica do “olho por olho”, testemunhando a capacidade de cura do Evangelho).
- Organizar uma evangelização com todos os membros da comunidade local nas ruas ou ações que demonstrem que a Aliança de Misericórdia, embora no mundo, não compactua com suas lógicas, mas testemunha o amor que nos foi dado.
- Viver um momento de oração comunitária de intercessão dedicando tempo de clamor a Deus por todos os membros do Movimento para que sejam “guardados do maligno” (Jo 17,15), para que a fé dos irmãos não desfaleça diante das pressões do mundo, e que o Movimento como um todo permaneça fiel à sua identidade e missão.
SEJAMOS UM para que o mundo creia!
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