Palavra do Mês – Setembro
No mês anterior aprofundamos o modelo trinitário de unidade através da pericórese divina, e visto a Igreja (comunidade de fé) como Corpo de Cristo. Neste mês somos convidados a mergulhar ainda mais na realização dessa unidade. O versículo de João 17,23a, “Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade…”, não é apenas uma oração, mas uma promessa e um programa de vida. Ele nos convoca a reconhecer que a fonte de nossa unidade não é a homogeneidade ou a anulação das diferenças, mas a profunda união íntima de amor da Trindade em cada um de nós. É a partir dessa presença divina interior que podemos aprender a valorizar a alteridade (a capacidade de se colocar no lugar do outro, entendendo que esse “outro” não é uma extensão de si mesmo, mas um ser único e diferente), transformando as diferenças (pessoais, carismáticas, culturais) de potenciais obstáculos em riquezas que constroem uma comunhão rica e plural, refletindo o próprio mistério de Deus Uno e Trino (CIAM, 2).
“Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”
Este fragmento da oração sacerdotal de Jesus revela o ápice de sua súplica: a perfeita unidade dos seus discípulos, modelada e fundamentada na unidade entre Ele e o Pai. A frase “Eu neles e tu em mim” exprime a presença divina íntima, profunda, permanente e recíproca: Jesus habita nos discípulos (pela graça e pelo Espírito), e o Pai habita em Jesus. Essa dupla inabitação (a presença divina íntima, profunda e permanente) estabelece uma corrente de vida e amor que se estende do seio da Trindade até cada pessoa de fé, tornando-o participante da própria comunhão divina (CAM, 145).
A expressão “para que sejam perfeitos na unidade” não se refere a uma unidade apenas funcional ou superficial, mas a uma unidade consumada, plena e madura. É uma unidade que reflete a perfeição do amor e da comunhão trinitária. Essa perfeição não anula as individualidades, mas as integra em um vínculo de amor que supera toda fragmentação. É a vivência da comunhão que se torna sinal para o mundo, como o próprio Jesus continua: “…para que o mundo conheça que tu me enviaste, e que os amaste a eles como me amaste a mim” (Jo 17,23b). (CAM, 85)
O Magistério da Igreja no texto da Gaudium et Spes (GS, 24) sublinha que “o Senhor Jesus, quando ora ao Pai ‘para que todos sejam um, como nós somos um’ (Jo 17,21-22), abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana, sugere uma certa semelhança entre a união das Pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança mostra que o homem, única criatura na terra que Deus quis por si mesma, não pode encontrar-se plenamente senão por um dom sincero de si”. Essa passagem do Concílio reforça que a Trindade não é apenas um modelo externo, mas uma inspiração para a própria constituição do ser humano. A unidade trinitária é o paradigma para a comunhão humana, que é alcançada através da doação de si.
A promessa de Jesus de habitar em nós, e o Pai n’Ele, é a verdade mais sublime da vida cristã, tornando cada batizado um santuário vivo da Santíssima Trindade. Essa inabitação divina é a raiz mais profunda de nossa unidade.
“Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”
A presença divina íntima, profunda e permanente na vida de todo aquele que crê em Jesus é um tema recorrente nas Escrituras. Jesus, em Jo 14,23, afirma: “se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele morada.” Essa “morada” não é simbólica, mas real e transformadora. Pelo batismo e pela graça, o Espírito Santo nos une a Cristo, e por Cristo, ao Pai. Teologicamente, esta é a doutrina da inabitação trinitária. A vida cristã é a participação na vida divina, onde o crente se torna um templo do Espírito Santo (1Cor 6,19) e é configurado a Cristo. Essa presença íntima de Deus em cada alma batizada é a fonte primária de nossa unidade: não somos apenas indivíduos, mas portadores da mesma Vida divina, unidos por um vínculo existencial com o próprio Deus. Essa unidade não é fabricada, mas recebida como dom, e, por isso, transcende todas as divisões humanas (CAM, 22).
Meditar sobre a presença de Cristo e do Pai em nós (pelo Espírito) eleva a dignidade da pessoa humana a um patamar incomparável. Na vida espiritual, somos convidados a uma profunda reverência por nós mesmos e pelos outros, vendo em cada ser humano, especialmente em cada batizado, um santuário de Deus. Isso nos impele a cultivar a interioridade, a vigilância e a purificação, para que essa morada seja sempre mais digna do Hóspede Divino. Veja que essa consciência da inabitação trinitária deve nos levar a uma profunda unidade interior (entre mente, coração e vontade) e a uma busca incessante pela harmonia nas relações, pois o mesmo Deus que habita em mim, habita também no meu irmão.
A Santíssima Trindade, com suas três Pessoas distintas e uma só essência divina, oferece o modelo supremo de como a diversidade pode coexistir em perfeita unidade e comunhão, nos ensinando a valorizar a alteridade e a complementaridade.
“Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”
A doutrina da Trindade revela que Deus não é um ser solitário, mas uma comunhão perfeita de Amor. O Pai não é o Filho, e o Filho não é o Espírito Santo; cada Pessoa é plena e distinta, mas todas compartilham a mesma substância divina e estão em perfeita relação de pericórese. A unidade não é a anulação das diferenças, mas a sua integração harmônica. Teologicamente, isso nos mostra que a unidade cristã não busca a uniformidade, mas a comunhão na diversidade. Como São Paulo descreve o Corpo de Cristo em 1Cor 12,12ss, há muitos membros e funções, mas um só corpo. O que nos une (a fé em Cristo, o Batismo, o Espírito Santo, a vocação comum à santidade) é infinitamente mais profundo e forte do que qualquer diferença de temperamento, carisma, cultura ou opinião. Essa verdade deve ser o fundamento para superar divisões e polarizações que possam existir no meio de nós (EAM, art. 5, parágrafo único).
Em nossa vida espiritual, o modelo trinitário nos desafia a superar o medo da diferença. Se Deus é Três e Um, nós somos chamados a viver a unidade respeitando e celebrando a pluralidade. Isso implica uma atitude de abertura e acolhimento para com o outro, que é diferente de mim, mas que, como eu, é amado por Deus e portador de Sua imagem. No Movimento Aliança de Misericórdia, devemos nos esforçar para enxergar nas diferenças um potencial de enriquecimento e não um motivo de conflito.
A busca pela unidade não é a imposição de uma única visão, mas o esforço para encontrar o terreno comum do amor de Cristo que une e harmoniza.
Precisamos compreender que o mistério da Trindade não é apenas um dogma a ser crido, mas um dinamismo de vida a ser imitado, especialmente na forma como lidamos com a alteridade e a complementaridade dentro da vida em comunidade.
A Igreja, comunidade de fé, ícone da Trindade, é chamada a viver a unidade na diversidade de seus membros e carismas. Como o Pai gera o Filho e procede o Espírito, cada um em sua singularidade, assim também na Igreja, os diferentes ministérios e carismas (cf. Ef 4,11-12) são dons do Espírito Santo que visam a edificação do único Corpo de Cristo. Observe com atenção que a complementaridade significa que as diversas partes se completam, e a alteridade é valorizada como necessária para a plenitude do todo. Não há um carisma superior ao outro no sentido de indispensabilidade, mas cada um é essencial e se realiza em relação aos demais. O modelo trinitário nos ensina que a harmonia surge da aceitação mútua e da colaboração, onde as diferenças não são obstáculos, mas as peças que compõem o mosaico da beleza de Deus.
Na vida concreta da nossa Família Aliança de Misericórdia, isso significa aprender a integrar as diferenças individuais (personalidades, opiniões) e carismáticas (talentos, dons) como riquezas. Na vida espiritual, exige de nós a humildade para reconhecer que não possuímos todas as respostas, a paciência para ouvir, e a caridade para acolher a contribuição do outro. Portanto, somos chamados a promover espaços de diálogo genuíno, onde a verdade é buscada em conjunto e não imposta, onde os conflitos são vistos como oportunidades de crescimento e reconciliação. A vivência da alteridade e da complementaridade, à luz da Trindade, nos capacita a construir uma comunidade mais resiliente, mais rica e mais fiel à sua vocação de ser sinal da unidade de Deus no mundo (CAM, 95).
“Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”
A unidade na Trindade é o modelo para a toda a nossa vida em comunidade: uma unidade que não teme a diversidade, mas a abraça como um enriquecimento. Compreenda que a uniformidade, muitas vezes imposta, empobrece; a unidade trinitária, ao contrário, é plural e dinâmica. Desse modo, todo Movimento Aliança de Misericórdia deve refletir essa realidade, promovendo uma comunhão que respeita as particularidades, as sensibilidades espirituais, os diferentes carismas e as vocações específicas.
Essa visão trinitária de unidade combate a tentação do uniformismo e do exclusivismo, e promove uma comunhão verdadeiramente católica (universal), onde a riqueza de cada membro contribui para a beleza do todo. É um convite a viver uma espiritualidade de comunhão, onde a caridade é o elo que harmoniza as legítimas diferenças, permitindo que sejamos um espaço onde o “o que nos une é maior do que nos distingue”, manifestando a alegria de ser povo de Deus (CT, 15).
O tema deste mês, ao nos convidar a contemplar a unidade trinitária, nos oferece o fundamento mais sólido para construir uma comunhão autêntica e superar as diferenças. A partir da verdade de que “Eu neles e tu em mim”, cada um torna-se santuário da Trindade, e essa inabitação divina é a raiz de nossa unidade. A Trindade nos ensina que a verdadeira comunhão não anula a diversidade, mas a integra e a celebra como riqueza, tornando “o que nos une maior do que nos distingue”. Que neste mês de setembro, ao meditar sobre a alteridade e a complementaridade do mistério trinitário, sejamos inspirados a viver em nossa Família Aliança de Misericórdia uma unidade rica e plural, um verdadeiro ícone da comunhão divina, testemunhando ao mundo o amor que nos torna “perfeitos na unidade”.
PROPÓSITOS CONCRETOS:
Pessoal: cultivar a consciência da unidade interior e a alteridade. A vivência da unidade começa na profundidade do ser de cada um, reconhecendo a morada divina e desenvolvendo a capacidade de amar e acolher o diferente.
a) Iniciar o dia ou um momento de oração com a consciência de que a Trindade habita em você: “Eu neles e Tu em mim”. Fechar os olhos e dizer silenciosamente: “Pai, Filho e Espírito Santo, habitam em mim. Sou templo da Santíssima Trindade. Permanecer neste silêncio, deixando-se amar e preencher por essa Presença divina (CAM, 141). Recordar em todos os momentos essa verdade sobre si e sobre o outro, para que cada encontro seja guiado pela dignidade inerente a cada um.
b) Exercício da visão sobre o Outro (diário/semanal): treinar o olhar para ver a presença de Deus no irmão, especialmente naqueles com quem há divergência ou dificuldade. Ao longo do dia, escolher uma pessoa do movimento (ou do seu círculo social) com quem você tem alguma diferença de opinião ou temperamento. Em vez de focar na diferença, tente visualizá-la como um “templo da Trindade”. Rezar silenciosamente por ela, pedindo que a unidade de Cristo se manifeste em suas vidas, e que você seja instrumento de acolhimento e compreensão.
c) Exame de consciência: refletir sobre como as suas próprias diferenças (características de personalidade, dons, fraquezas) podem ser complementares às de outros, e como você pode contribuir para a unidade do todo. No final de cada semana deste mês, anote no seu diário espiritual um exemplo de como uma de suas qualidades (ou até mesmo um de seus limites) se encaixou ou complementou a de outra pessoa em uma tarefa ou situação no movimento. Reconheça a beleza dessa complementaridade, valorizando as diferenças como parte do plano de Deus para a unidade.
Comunitário: celebrar a unidade na diversidade e integrando as diferenças. A comunidade é o laboratório onde a unidade trinitária pode ser experimentada e testemunhada, transformando as diferenças em pontes de comunhão.
a) Promover momentos de “perdão, reconciliação e unidade no encontro mensal (dinâmica do lava-pés). Não se esqueça que precisamos iniciar cada encontro interno do Movimento Aliança de Misericórdia com um momento de oração e reconciliação, explicitamente centrado na unidade trinitária: “sejamos um para que o mundo creia” (CAM, 86).
b) Criar espaços para que os membros do Movimento expressem diferentes pontos de vista sobre questões pastorais, sociais ou eclesiais, buscando a unidade na pluralidade. A meta da escuta do outro não é chegar a um consenso imediato, mas a uma compreensão mútua. Precisamos sempre recordar o modelo trinitário: as pessoas são distintas, mas estão em perfeita comunhão.
Que SEJAMOS UM para que o mundo creia!
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