Palavra do Mês de Julho
DO INTERIOR AO EXTERIOR (II): A UNIDADE QUE SE EXPANDE AOS IRMÃOS E AO MUNDO
“…para que também eles estejam em nós, e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21b).
Após um mês de imersão na temática da unidade que nasce da intimidade com Deus em nosso próprio coração, o tema de julho nos impulsiona a uma segunda e crucial etapa: a expansão dessa unidade. A oração de Jesus em João 17,21b não termina na união pessoal (“estejam em nós”), mas, aponta para uma finalidade missionária maior (“e o mundo creia que tu me enviaste”). A paz interior e a experiência da Trindade em nós não são para serem retidas, mas para transbordar, construindo uma comunhão fraterna em nosso Movimento e, a partir dela, gerando um testemunho tão eloquente que atraia o mundo ao mistério do Pai que enviou o Filho. É o movimento do amor que vai do divino para o humano, do pessoal para o comunitário, e do interior da comunidade, da Igreja para a humanidade inteira (EAM, art. 3, §1-4).
“Para que também eles estejam em nós, e o mundo creia que tu me enviaste”
A experiência profunda da unidade com Deus no santuário do coração não pode permanecer isolada. Pelo contrário, ela gera um desejo intrínseco e uma capacidade renovada de viver em comunhão com os irmãos. A caridade, fruto desta união íntima entre o Pai, o Filho e Espírito Santo, impulsiona à relação, à partilha, à construção de laços de unidade.
O “estar em nós” de João 17,21b refere-se à unidade dos discípulos com o Pai e o Filho, e esta mesma unidade divina é o modelo da unidade entre os aqueles que creem (cf. Jo 17,22-23). Quem experimenta o Amor Trinitário em si, necessariamente sente-se impelido a amar o próximo. Não se trata de uma imposição externa, mas de um dinamismo interno: o Espírito Santo, que é o laço de amor entre o Pai e o Filho, torna-se também o vínculo de união entre aqueles que creem em Jesus. A unidade com Deus se manifesta concretamente na unidade fraterna (CAM, 79). A Primeira Carta de João reitera: “Se alguém disser: Eu amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).
“Para que também eles estejam em nós, e o mundo creia que tu me enviaste”
Esta conexão indissolúvel entre o amor a Deus e o amor ao próximo é o fundamento da vida cristã. O Papa Bento XVI, em sua encíclica Deus Caritas Est, recorda que “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4,16), e acrescenta: “o amor a Deus e o amor ao próximo são inseparáveis, formam um único mandamento” (DCE, 1). A unidade interior com Deus é a fonte da caridade que constrói a comunidade. Quando a pessoa está pacificada em Deus, ela se torna capaz de acolher o outro em suas fragilidades e de amar com um amor que não busca a si mesmo, mas o bem do irmão. Meditar sobre isso nos leva a reconhecer que a profundidade da nossa comunhão com Deus se mede pela qualidade da nossa comunhão fraterna.
A unidade que se expande do interior encontra seu primeiro campo de manifestação na própria comunidade de fé, no caso, o nosso Movimento Aliança de Misericórdia. Construir essa unidade “ad intra” (para dentro, em direção ao interior) significa vivenciar o carisma próprio do Movimento como o elo que une e a base para o serviço.
O Movimento Aliança de Misericórdia é chamado a ser uma expressão concreta dessa unidade fraterna, onde cada membro, nutrido pela intimidade com Deus, contribui com seus dons para o bem comum. O carisma da misericórdia, longe de ser apenas uma atividade, é um estilo de vida, uma maneira de amar e de se relacionar, que deve permear todas as interações internas. É na vivência da misericórdia entre os próprios membros (perdão, acolhimento, serviço, compaixão) que a comunidade se edifica como um sinal eficaz da presença de Deus. O carisma torna-se a “cola” que une, a linguagem comum, a missão compartilhada (CAM, 3).
A experiência dos primeiros cristãos, descrita nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47; 4,32-35), que viviam “unidos, e tinham tudo em comum”, é um ideal constante para a Igreja e para os movimentos. Embora não se trate de um retorno literal a esse modelo, o espírito de partilha e unidade na fé e no carisma permanece. São Bento, em sua Regra, enfatizava a importância da vida comum e do amor fraterno como caminhos de santificação. Nela, o abade exerce misericórdia para com os mais frágeis e todos se servem mutuamente. Essa sabedoria milenar ecoa uma verdade perene: a ordem e a caridade refletem a ordem divina e preparam a comunidade para a missão. Portanto, para todos nós do Movimento Aliança de Misericórdia, viver a misericórdia entre nós é a prova da autenticidade do seu carisma (CT, 15).
“Para que também eles estejam em nós, e o mundo creia que tu me enviaste”
Observe que a unidade vivida na comunidade não é um porto seguro para o isolamento, mas uma força propulsora para o testemunho e a ação transformadora na sociedade. A vida espiritual, cultivada individualmente e compartilhada comunitariamente, gera um impulso missionário inerente, uma necessidade de irradiar a luz de Cristo ao mundo.
O ponto culminante da oração de Jesus em Jo 17,21b é “e o mundo creia que tu me enviaste”. A unidade dos discípulos é o sinal teofânico que revela a missão divina de Jesus. Uma comunidade que experimenta a unidade interior e a vive “ad intra” torna-se um sinal vivo da presença do Reino de Deus na terra. Essa unidade, que se torna visível em obras de caridade e misericórdia, é o argumento mais persuasivo para a fé. O serviço aos pobres material e espiritual, a todos os que sofrem, não é apenas uma atividade filantrópica, mas a concretização do carisma, o anúncio mais eloquente de que Deus é Amor e age por meio de Seus discípulos unidos: EVANGELIZAR PARA TRANSFORMAR (CAM, 8).
O Papa Francisco, em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, sublinha que “a comunhão evangelizadora possui sempre um caráter missionário” (EG, 31). Ele insiste que a “alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” e que “quem se deixa salvar por Ele é libertado do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce incessantemente a alegria” (EG, 1). Essa alegria, fruto da unidade com Deus e da comunhão fraterna, não pode ser contida; ela transborda em um impulso irresistível de partilha e de serviço, de saída missionária. Uma comunidade que vive sua vida espiritual profundamente, em união e misericórdia, será naturalmente uma comunidade em saída, capaz de levar a esperança e a paz de Cristo aos mais diversos ambientes (CAM, 23).
“Para que também eles estejam em nós, e o mundo creia que tu me enviaste”
A Palavra deste mês nos chama a completar o ciclo da unidade: da intimidade pessoal com Deus, que nos pacifica e integra, à comunhão fraterna que edifica a comunidade no carisma da misericórdia, e daí ao transbordamento em missão e serviço ao mundo. A oração de Jesus em João 17,21b é um programa de vida para o discípulo e para a Igreja: “para que também eles estejam em nós” – cultivando a presença de Deus em nosso interior e entre nós – “e o mundo creia que tu me enviaste” – tornando-nos um testemunho vivo e irresistível do amor e da unidade de Deus. Que nossa Família Aliança de Misericórdia, vivendo profundamente essa verdade, seja um sinal profético de misericórdia e unidade para todos.
PROPÓSITOS CONCRETOS:
Pessoal: O discípulo como construtor de pontes. Tendo cultivado a unidade interior, cada membro do Movimento Aliança de Misericórdia é agora chamado a ser um promotor ativo da comunhão fraterna e um agente da misericórdia no mundo, testemunhando a fé em Jesus.
- Viver o exercício da Misericórdia fraterna: traduzir a paz e a unidade interior em atos concretos de misericórdia e caridade nas relações cotidianas. Isso significa praticar a escuta atenta, a paciência, o perdão rápido, a correção fraterna feita com amor, e o serviço desinteressado aos colegas de Movimento, familiares e vizinhos. A caridade não é um sentimento passivo, mas uma escolha ativa de amar como Cristo amou (EAM, art. 4, §1). A partir de Jo 17,21b: compreender que a unidade que “está em nós” nos capacita a viver uma caridade que se expande aos irmãos, refletindo a união do Pai e do Filho.
- Buscar intencionalmente intercessores pessoais (membros do Movimento ou de comunidades mais próximas) para interceder diariamente, pedindo a Deus que fortaleça sua fé, abençoe suas ações e cure suas feridas, promovendo a unidade. A partir de Jo 17,21b: participar ativamente da oração de Jesus para que “todos sejam um”, começando por aqueles que estão mais próximos.
- Servir as “periferias existenciais”: a partir da própria vida espiritual, identificar uma “periferia existencial” (seja no ambiente de trabalho, vizinhança, uma causa social ou um grupo específico de pessoas necessitadas) e intencionalmente se colocar a serviço, oferecendo escuta, tempo, recursos ou dons. Esse serviço não deve buscar autoafirmação, mas ser um transbordamento da unidade e do amor de Cristo em seu coração. Com a finalidade de exercitar o serviço como caminho para que o mundo “creia que tu me enviaste”, vendo o amor em ação.
- Atenção com a comunicação geradora de unidade: ser vigilante com as palavras, evitando fofocas, críticas destrutivas e julgamentos precipitados. Buscar ser um agente de paz e unidade na comunicação, tanto presencial quanto nas redes sociais. Perguntar-se: “minhas palavras constroem pontes ou muros?”
Comunitário: ser um sinal de unidade para o mundo. O Movimento Aliança de Misericórdia, enquanto comunidade daqueles que creem em Jesus, deve ser um laboratório vivo da unidade e uma força propulsora de misericórdia que se irradia, a fim de que seu testemunho atraia o mundo à fé.
- Promover momentos que priorize a partilha de vida, desafios e alegrias. O objetivo é que, nesse nestes contextos de acolhimento e escuta ativa, cada membro possa exercitar a caridade fraterna, a correção mútua e o discernimento comunitário, fortalecendo os laços de unidade “ad intra” (CAM, 90). A partir de Jo 17,21b, esses momentos são espaços onde o “estar em nós” se manifesta na comunhão concreta dos irmãos.
- Promover a formação contínua em “comunhão e missão” no carisma da Misericórdia. Desenvolver pontos específicos sobre a vida de comunhão e sua aplicação prática no Movimento, à luz da misericórdia (por exemplo: aprofundar temas como perdão comunitário, resolução de conflitos à luz do Evangelho, a importância da diversidade de dons para a unidade e a urgência da missão evangelizadora). Se quiser aprofundar, pode-se utilizar textos do Magistério da Igreja como Lumen Gentium ou Deus Caritas Est e da Tradição que abordem a unidade da Igreja (Santo Inácio de Antioquia em suas cartas, especialmente aos Efésios, Magnésios, Romanos e Filadelfios; São Cipriano de Cartago no texto De Unitate Ecclesiae [Sobre a Unidade da Igreja]; Escritos de santos e mestres espirituais contemporâneos ou de grande influência, como: Santa Faustina Kowalska; Chiara Lubich, sobre a espiritualidade da unidade, Santa Teresa de Calcutá…).
- Ação missionária em comunidade com alto impacto no testemunho. Planejar e executar ações missionárias que sejam expressão viva da unidade e do carisma da Aliança de Misericórdia. Estas ações devem ser visíveis e relevantes, de modo que a ação conjunta dos membros seja um forte testemunho de unidade. Exemplos: evangelização em periferias urbanas, mutirões de ajuda a comunidades carentes, iniciativas de acolhimento e reinserção social. A partir de Jo 17,21b, estas iniciativas precisam ter uma única finalidade: “para que o mundo creia”, vendo a unidade e a misericórdia em ação.
- Retomar o testemunho da unidade na liderança do Movimento local. A liderança do Movimento, deve ser um modelo de como a unidade interior se traduz em comunhão fraterna e serviço eficaz. Compartilhar abertamente os desafios e as alegrias de construir a unidade “ad intra”, enfatizando que a integração do Movimento é o terreno fértil para que sua missão evangelizadora frutifique, e que sua própria experiência de intimidade com Deus fortalece essa liderança.
SEJAMOS UM para que o mundo creia!
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