PALAVRA DO MÊS | AGOSTO

A TRINDADE: NOSSO MODELO DE UNIDADE

“E eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17,22).

Tendo contemplado a expansão dessa unidade que nasce dentro de nós na intimidade com Deus e que se expande aos irmãos e ao mundo, este mês de agosto nos convida a aprofundar no próprio coração dessa unidade divina: a Trindade como modelo. Mergulharemos no conceito de pericórese, a “dança” de amor e inter-relação entre as Pessoas divinas, e como essa dinâmica não é um mistério distante, mas o fundamento e o ideal para a vida da Igreja e de cada um de nós. Jesus não apenas nos dá a glória, mas nos convida a participar ativamente dessa unidade, tornando-nos, enquanto Corpo de Cristo, uma manifestação viva do amor trinitário para o mundo. É um convite a reconhecer que nossa unidade não é apenas um esforço humano, mas um dom e uma vocação radicada na própria vida de Deus (CAM, 81).

“E eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um”

Este versículo central da oração de Jesus é um testamento de sua paixão pela unidade e sua visão para seus discípulos. A “glória” (do grego δόξα – *dóxa*) que Jesus menciona não é meramente um prestígio, mas a própria manifestação da presença e da essência divina. No contexto do Evangelho de São João, a glória de Jesus se revela em sua perfeita obediência ao Pai, em seu serviço sacrificial, e tem seu cume em sua paixão, morte e ressurreição. Ao “dar” essa glória aos seus, Jesus os insere em sua própria relação filial com o Pai, capacitando-os a participar da vida divina.

A expressão “para que sejam um, como nós somos um” é crucial. Não se trata de uma simples união funcional ou social, mas de uma unidade que mimetiza a comunhão perfeita e recíproca entre as Pessoas divinas da Trindade.

É uma unidade que preserva as distinções individuais, mas as harmoniza num vínculo de amor inseparável. A glória, portanto, é a capacidade infundida pelo Espírito de viver esse amor trinitário, que é a essência da verdadeira unidade.

Santo Agostinho dizia que “amor é o Espírito Santo. Mas o Espírito Santo não é amor no sentido de que o Pai não seja amor ou o Filho não seja amor, mas porque ele é o Espírito do Pai e do Filho, e de tal maneira que a unidade, que é a conjunção do Pai e do Filho, manifesta-se especialmente nele” (SANTO AGOSTINHO, De Trinitate, VI, X, 11).

Observe que Santo Agostinho nos ajuda a compreender que o Espírito Santo não é apenas um “terceiro” em uma relação, mas o vínculo pessoal do amor que constitui a unidade entre o Pai e o Filho. Este Amor Pessoal, derramado em nossos corações (Rm 5,5), é o que nos capacita a viver a unidade a que Jesus se referiu.

O Magistério da Santa Igreja no texto da *Lumen Gentium* (LG, 4), afirma que “a Igreja é manifestada como um povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Esta afirmação ecoa diretamente a súplica de Jesus, sublinhando que a Igreja não tem em si mesma a fonte de sua unidade, mas a recebe e a reflete da própria Trindade. A unidade da comunidade de fé é, assim, uma participação real na unidade divina, tornando-a um sacramento, um sinal e instrumento dessa comunhão no mundo (CT, 15).

“E eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um”

O termo pericórese (do grego περιχώρησις, *perichoresis*, “interpenetração” ou “mútua habitação”) é um dos conceitos mais ricos para descrever a unidade da Santíssima Trindade (CAM, 82). Ele expressa a verdade de que cada Pessoa divina não apenas coexiste com as outras, mas reside plena e perfeitamente nas outras, numa inseparável e dinâmica comunhão de amor.

O Pai ama o Filho, o Filho ama o Pai, e o Espírito Santo é esse amor personificado, o elo indissolúvel que garante a unidade na perfeita distinção das três Pessoas. Essa “dança divina” de doação e recepção mútuas é o princípio ativo da unidade trinitária, onde cada Pessoa se entrega totalmente às outras e as acolhe em si. É um dinamismo de amor que evita tanto o modalismo (uma única pessoa com três “máscaras”) quanto o triteísmo (três deuses separados).

A pericórese não é explicitamente nomeada na Bíblia, mas sua realidade é profundamente enraizada na revelação bíblica da Trindade. Textos como Jo 14,10: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim”, e Jo 10,38: “O Pai está em mim e eu no Pai”, juntamente com a participação do Espírito Santo, que “sonda até as profundezas de Deus” (1Cor 2,10), apontam para essa mútua inabitação (presença íntima, profunda e permanente). O significado de pericórese nos assegura que o amor não é apenas um atributo de Deus, mas Sua própria essência (1Jo 4,8).

Contemplar a pericórese é mergulhar no mistério de um Deus que é Amor-Comunhão. Em nossas vidas, a pericórese nos inspira a buscar relações profundas, a acolher o outro em sua singularidade e a nos doar. Se Deus é um círculo de amor, somos chamados a imitar essa dinâmica em nossas relações familiares e comunitárias, aprendendo a residir uns nos outros pelo amor e pela aceitação mútua.

Refletir sobre a pericórese é reconhecer que a fonte de toda unidade verdadeira está em Deus e que somos chamados a participar dessa unidade, tornando-nos canais do amor divino.

Nossa Família Aliança de Misericórdia, nascida do coração da Trindade e sustentada pelo Espírito Santo, é chamada a ser, na terra, o reflexo e a participação da comunhão divina. Ela não é apenas uma organização, mas um organismo vivo, membro do Corpo de Cristo que é a Igreja. São Paulo utiliza a imagem do “Corpo de Cristo” (1 Cor 12,12-27; Ef 4,1-16) para descrever a Igreja.

“E eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um”

Assim como um corpo possui muitos membros, cada um com funções distintas, mas todos interdependentes e unidos pela mesma vida, assim é a Igreja. A afirmação “somos todos membros uns dos outros” (Rm 12,5) ecoa a lógica da pericórese: cada membro não existe isoladamente, mas em relação vital com os outros e para o bem do todo. Cristo é a Cabeça, e todos os batizados são membros do Seu Corpo, vivificados pelo mesmo Espírito.

Como vimos no início, Jesus, em sua oração sacerdotal, roga ao Pai que seus discípulos recebam a mesma glória que Ele recebeu, não para engrandecimento pessoal, mas para que sejam um. Essa glória é o fundamento e a capacidade para nossa comunhão.

A “glória” que Jesus compartilha (Jo 17,22) não é um ornamento externo, mas a própria vida divina, a capacidade de viver em perfeita comunhão e amor com o Pai e com os irmãos.

Essa glória é a participação na natureza divina (2Pd 1,4), o dom da graça que nos capacita a amar com o ágape divino, um amor que se doa e busca a unidade. Essa glória se manifesta plenamente na kênosis (esvaziamento) de Cristo na Cruz, onde o amor se entrega totalmente. Compartilhar essa glória significa ser infundido com o Espírito Santo, que nos conforma a Cristo e nos capacita a viver o amor que une as Pessoas da Trindade.

É essa capacidade de amar que nos tira do egoísmo e nos projeta para a comunhão (CAM, 148).

Receber a glória de Cristo significa ter o coração transformado para amar como Ele amou. Isso implica em um chamado radical à humildade, ao serviço e ao sacrifício mútuo, pois a glória de Cristo se revela na doação. Devemos nos perguntar: como a glória de Cristo se manifesta em minha vida e em minha comunidade? Ela se traduz em perdão, em acolhimento, em generosidade?

A unidade a que somos chamados não é conquistada pela força ou pela uniformidade, mas pelo amor que nos permite transcender as diferenças e viver em comunhão, testemunhando que “somos um como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti”.

A misericórdia, longe de ser apenas um sentimento passivo, é uma força ativa e transformadora que, ao quebrar barreiras e curar feridas, se torna um caminho tangível para manifestar a unidade e a glória de Cristo. Deus é, em sua essência, misericórdia. O Pai é “rico em misericórdia” (Ef 2,4), Jesus Cristo é o rosto visível da misericórdia do Pai (MV, n.1), e o Espírito Santo é o consolador que derrama esse amor misericordioso em nossos corações (Rm 5,5).

Veja que praticar a misericórdia, portanto, é participar dessa dinâmica trinitária de amor que se inclina sobre a fragilidade e a necessidade humana. A misericórdia não é apenas ajudar o pobre, mas perdoar, acolher o outro (nossos irmãos), restaurar a dignidade.

Quando vivemos a misericórdia, eles se tornam um sinal visível e credível da comunhão trinitária. A misericórdia derruba os muros de indiferença e juízo, constrói pontes de reconciliação e convida à unidade, pois nela vemos o amor de Deus agindo para restaurar o que estava dividido e ferido. A unidade não é um mero consenso, mas o fruto da compaixão e do perdão mútuo (EAM, art. 2, §2).

O Padre Raniero Cantalamessa apresenta a Trindade como a própria essência do amor. Ele frequentemente a descreve como um “círculo de amor”, uma dança incessante de doação e recepção. A criação, a encarnação e a redenção são expressões desse amor transbordante que deseja incluir a humanidade nessa comunhão.

Portanto, a vida trinitária é um fluxo incessante de amor que se doa e se recebe. A aplicação dessa realidade a nossa vida em comunidade é profunda: somos chamados a ser uma extensão desse círculo de amor no mundo, a imitar esse dinamismo trinitário, onde cada membro, em sua singularidade, se doa aos outros e os acolhe, vivendo em constante reciprocidade. O Padre Cantalamessa nos desafia a tornar nossa comunidade um espaço onde se experimente a alegria de dar e receber, de ser parte de algo maior que nós mesmos, onde o amor de Deus circula livremente, unificando e santificando a todos.

Viver em comunidade é aprender a entrar nessa “dança” divina, permitindo que o Espírito Santo nos guie para uma unidade cada vez mais profunda.

“E eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um”

Em síntese, neste oitavo tema fomos convidados a uma imersão no mistério da Trindade como o modelo supremo de unidade. Através da pericórese, compreendemos o dinamismo do amor divino que unifica Pai, Filho e Espírito Santo, e que se derrama sobre nós. Como Igreja, Corpo de Cristo, somos chamados a ser o reflexo e a participação dessa unidade trinitária, onde cada membro, pela glória de Cristo compartilhada, é capacitado a amar e a viver em comunhão. A misericórdia, como expressão concreta desse amor, torna-se o caminho tangível para manifestar essa unidade no mundo.

Que a meditação neste mês nos inspire a acolher e a viver a unidade em nossas comunidades, não como uma tarefa humana árdua, mas como um dom da Trindade, um círculo de amor no qual somos convidados a entrar e a permanecer, para a glória de Deus e para o testemunho de um mundo que anseia por comunhão.

PROPÓSITOS CONCRETOS:

Pessoal: cultivar a unidade interior e a capacidade de amar.

A unidade Trinitária é, primeiramente, um convite a olhar para dentro, reconhecendo a morada de Deus em nós e transformando nossa própria existência em um reflexo dessa comunhão divina.

a.) Exercício da “pericórese interior”: dedicar um momento de oração silenciosa diária para contemplar a Trindade habitando em si. Imaginar a dança divina (pericórese) dentro do próprio coração, como Pai, Filho e Espírito Santo residem mutuamente. É necessário conscientizar-se da presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo em sua alma. Perguntar-se: “como o amor de Cristo me impulsiona hoje? Como a sabedoria do Pai me guia? Como a consolação do Espírito me sustenta? Deixar que essa consciência mude a percepção das próprias ações e pensamentos, promovendo uma maior unidade entre corpo, mente e espírito (CAM, 119).

b.) Manter um pequeno diário ou bloco de notas para registrar momentos em que a “glória de Cristo” se manifestou em sua vida ou através de você. Semanalmente, refletir sobre uma situação em que você conseguiu amar o próximo com um amor que transcende o próprio egoísmo, ou quando você vivenciou um momento de profunda comunhão com Deus ou com outros. Anotar esses momentos, percebendo como a capacidade de amar e gerar unidade é um dom da graça de Cristo. Isso ajuda a fortalecer a confiança na presença ativa de Deus.

c.) Compromisso com o “olhar pericorético” (diário): fazer um esforço consciente para olhar para cada pessoa que se encontra com o “olhar de Cristo”, reconhecendo a dignidade e a potencial presença da imagem divina nela. Antes de iniciar uma conversa ou interação, especialmente com alguém com quem há alguma dificuldade, fazer uma breve oração pedindo a graça de ver essa pessoa como um filho ou filha de Deus, amado(a) por Ele. Isso ajuda a quebrar preconceitos, a fomentar a empatia e a cultivar um coração misericordioso.

d.) Ter atitude de Misericórdia ativa (ação mensal): escolher uma obra de misericórdia (corporal ou espiritual) para praticar ativamente durante o mês. Isso compreende em: visitar um doente, ligar para alguém que está sozinho, perdoar uma ofensa real, acolher alguém marginalizado, rezar por quem o perseguiu, ou oferecer um ombro amigo a alguém em sofrimento. O importante é que seja uma ação concreta que manifeste o amor de Deus e contribua para a unidade.

 

Comunitário: manifestando a unidade Trinitária no Corpo de Cristo.

A unidade do Movimento Aliança de Misericórdia deve ser um reflexo visível da comunhão trinitária, uma “dança de amor” onde cada membro contribui para o bem comum e para a manifestação da glória de Cristo.

a.) Organizar pequenos grupos de revisão da própria comunidade, pondo em foco a partilha onde o objetivo não seja apenas a discussão de ideias, mas a escuta profunda e o acolhimento recíproco. Em vez de debater, cada membro compartilha sua experiência sobre um tema (pode ser o versículo de João 17,22, ou como vivencia a misericórdia), e os outros escutam atentamente, sem interrupções ou julgamentos, buscando a presença de Cristo na fala do outro (CAM, 90). Ao final, pode-se fazer um momento de louvor espontâneo expressando gratidão pelo que foi partilhado, reforçando a ideia de que o Espírito Santo habita em cada um e os une.

b.) Realizar um momento para reconhecer e celebrar publicamente os diversos carismas e dons presentes no movimento. Cada membro ou setor do movimento pode apresentar brevemente seu serviço, projeto ou dom, e a comunidade o reconhece e agradece. Isso promove a valorização da diversidade como riqueza, e não como fonte de divisão, fortalecendo a consciência de que somos um corpo com muitos membros, onde a glória de Cristo se manifesta na pluralidade de dons.

c.) Oração de “intercessão pericorética” (quinzenal): dedicar um momento específico da oração comunitária à intercessão pelas intenções de cada membro do movimento e do mundo, com uma intenção especial pela unidade. Durante a Santa Missa no JAM, na oração dos fiéis, ou em um terço/adoração, rezar nome a nome (se possível) pelos membros do movimento, pedindo que a graça da unidade trinitária inunde seus corações e suas ações. Rezar também pela superação de divisões na Igreja e no mundo, manifestando a fé de que a unidade é um dom a ser incessantemente suplicado e vivido.

d.) Momentos de convivência e alegria (regularmente): conforme a visão do Padre Raniero Cantalamessa sobre a Trindade, como um “círculo de amor” que transborda, criar momentos de convivência fraterna que vão além das reuniões formais. Organizar confraternizações, passeios, almoços comunitários ou atividades recreativas onde a alegria, o partilhar descontraído e a amizade possam florescer. A vivência da alegria na comunhão é um testemunho poderoso da presença do Espírito Santo e um reflexo da felicidade perfeita da Trindade.

SEJAMOS UM para que o mundo creia

0 Comments

Leave a Comment

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password