Aliança de Misericórdia e a acolhida que gera recomeços
Em encontro sobre dependências na América Latina, Papa afirmou que “não há melhor prevenção contra as drogas do que uma boa família” e pediu uma Igreja que seja casa para quem sofre
O Papa Leão XIV destacou a importância da família na prevenção das dependências químicas entre os jovens e chamou a Igreja a se tornar uma presença próxima para aqueles que vivem situações de abandono, violência, pobreza e ruptura de vínculos. A declaração foi feita na quinta-feira, 27 de agosto, durante uma audiência com participantes de um encontro internacional sobre as situações de dependência na América Latina, realizado em Roma.
Ao refletir sobre o papel da família, o Papa afirmou que ela é uma “igreja doméstica”, onde a vida é cultivada, cuidada e projetada. “Não há melhor prevenção contra as drogas do que uma boa família”, disse. Leão XIV, porém, também recordou que muitas famílias são atingidas justamente pelas consequências das dependências, da violência, do recrutamento de jovens pelo crime e da falta de oportunidades.
Por isso, segundo o Pontífice, a resposta ao problema precisa envolver prevenção comunitária, atenção científica, justiça e acompanhamento pastoral. “Nossa contribuição deve visar o cuidado, a presença e a reconstrução do tecido comunitário”, afirmou.
A reflexão do Papa encontra uma expressão concreta no trabalho realizado pela Aliança de Misericórdia junto a pessoas em situação de vulnerabilidade. Em 2025, o Movimento realizou 1.756 acolhimentos de adultos em situação de rua ou vulnerabilidade e manteve casas e projetos voltados à recuperação, à reinserção social e à reconstrução de vínculos.
Acolher é mais do que oferecer um lugar
Na Aliança de Misericórdia, as casas de acolhida fazem parte de uma missão que busca unir cuidado humano, promoção da dignidade e anúncio do Evangelho. O próprio carisma do Movimento nasceu do encontro entre a evangelização e a realidade concreta das pessoas em situação de vulnerabilidade e se expressa no compromisso de “Evangelizar para Transformar”.
Esse modo de compreender o acolhimento aparece de maneira especial nas casas destinadas a pessoas que enfrentam a dependência química e outras situações de ruptura. Em Barbalha (CE), por exemplo, a Casa de Triagem Nivaldo da Cruz e a Casa de Acolhida São João Batista formam um percurso de acompanhamento para homens marcados pela situação de rua e pela dependência química. Em 2025, 74 novos homens passaram pela Casa de Triagem e outros 36 aprofundaram o processo na Casa de Acolhida, em uma rotina que reúne acompanhamento humano e espiritual, atividades formativas, esportivas e de convivência. Ao final do ano, cinco acolhidos concluíram o percurso e retornaram à sociedade; um deles passou a integrar a própria missão como colaborador.
Em Barbacena (MG), a Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus acompanhou 57 Filhos da Misericórdia em 2025, dentro de processos de restauração humana, espiritual e social. Em Tremembé (SP), a Casa de Acolhida Mãe da Ternura acompanha mulheres que enfrentam situações de rua, drogadição, abandono e rupturas familiares. O trabalho também busca preservar os vínculos entre mães e filhos, favorecendo processos de reconciliação e reorganização da vida.
Essas experiências ajudam a compreender uma dimensão importante da fala de Leão XIV: quando os vínculos familiares são rompidos, a necessidade de uma comunidade que acolha e acompanhe se torna ainda mais urgente.
Como tratamos quem chega até nós?
Ao falar sobre as dependências, o Papa também retomou uma imagem muito presente no Evangelho: a do Bom Samaritano. Leão XIV pediu uma Igreja que não passe indiferente diante de quem caiu pelo caminho, mas que se aproxime, cuide das feridas, alimente e se torne um lar.
Essa perspectiva ajuda a olhar para o trabalho das casas de acolhida para além dos números. Uma pessoa que chega marcada pela dependência química não é definida pela dependência. Quem viveu nas ruas não deixa de ser reconhecido em sua dignidade. Quem teve os vínculos familiares rompidos não é tratado como alguém sem história.
É nesse sentido que a pergunta deixada pela fala do Papa também pode alcançar a comunidade cristã: como tratamos os irmãos que chegam até nós depois de perder quase tudo?
Para a Aliança de Misericórdia, a resposta passa pela proximidade. Passa por reconhecer o nome, escutar a história, oferecer uma rotina, cuidar das necessidades concretas, favorecer a recuperação e acompanhar os passos possíveis de reinserção. Passa também por anunciar que aquela vida não está perdida.
A experiência da Casa Restaura-me, em São Paulo, expressa essa lógica. O espaço recebe diariamente pessoas em situação de rua e extrema vulnerabilidade, oferecendo acolhimento, escuta, cuidados básicos e encaminhamentos sociais. Em 2025, a casa também ampliou iniciativas de formação profissional e reinserção social, criando oportunidades para que os acolhidos recuperassem autonomia e perspectivas para o futuro.
Uma família para quem ficou à margem
Ao final de seu discurso, Leão XIV afirmou desejar que a Igreja seja “a família de todas as pessoas que ficaram à beira da estrada”. A imagem está diretamente ligada àquilo que o Papa apresentou como resposta cristã às dependências: uma Igreja que se detém, se aproxima e reconstrói vínculos.
A experiência da Aliança mostra que esse cuidado não acontece apenas quando uma pessoa chega a uma casa de acolhida. Ele começa muitas vezes na rua, em uma visita, em uma conversa, em uma refeição partilhada ou em uma comunidade que decide não ignorar quem está sofrendo.
Em Belo Horizonte, por exemplo, missionários realizam evangelização de rua e, ao longo de 2025, cerca de 21 pessoas foram encaminhadas às casas de acolhida. A missão também acompanhou famílias marcadas pela dependência química e realizou ações preventivas com crianças e jovens.
Por trás de cada encaminhamento, acolhimento ou atendimento existe uma história que precisa ser tratada com dignidade. É justamente aí que a afirmação do Papa ganha uma dimensão que ultrapassa a prevenção: quando a família está ferida, a Igreja é chamada a não deixar a pessoa sozinha.
No carisma da Aliança, acolher é participar desse movimento de restauração. É permitir que o irmão encontre novamente um lugar à mesa, reconstrua vínculos e descubra que sua história pode ter um novo começo. Porque, diante de quem sofre, a misericórdia começa também na forma como escolhemos olhar, receber e tratar o outro.
Você também pode fazer parte dessa missão
Manter uma casa de acolhida significa oferecer mais do que um lugar para morar. É garantir presença, cuidado, alimentação, acompanhamento e oportunidades para que cada pessoa possa reconstruir sua história e recuperar a própria dignidade. Esse trabalho só é possível com a participação de muitas pessoas. Quem deseja contribuir para que a Aliança de Misericórdia continue acolhendo e acompanhando irmãos em situação de vulnerabilidade pode colaborar com a missão por meio do PIX: doe@misericordia.com.br.
Para conhecer outras formas de apoiar nossos projetos — como doações via Nota Fiscal Paulista, dedução do Imposto de Renda e parcerias institucionais —, acesse a página social da Aliança de Misericórdia e saiba como contribuir.
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