Caim foi rejeitado?

Continuação da formação: Caim e Abela dificuldade de viver como irmãos

Quando Caim oferece o sacrifício, Deus não aceita. Isto é o que diz o Gênesis e, como é lógico, são muitos os que têm se empenhado por entender as razões deste desprezo de Deus, elaborando toda classe de hipótese: é que Caim não oferece as primícias como deveria fazer; Caim faz sua oferenda de má vontade... Entre as numerosas interpretações, há uma interessante: “Está escrito: ‘E Abel se oferecia também a si mesmo. Só quando alguém se oferece a si mesmo, seu sacrifício é agradável a Deus”. Se a Escritura não nos explica o motivo desta preferência de Deus é, talvez, porque quer que centremos n’Ele nossa atenção. Com isso voltemos a examinar a reação de Caim.

Há uma coisa que está clara: para o filho maior de Adão e Eva, a chegada do irmão menor constitui um problema sério. Já não pode pensar que é o único: no cenário do mundo, apareceu um rival, alguém que pode tirar o seu posto. Alguém distinto, ainda que seja o seu irmão, representa de imediato uma ameaça. E quando este outro é “Abel”, um “sopro”, “vapor”, nasce num instante a tentação de varrê-lo, de eliminá-lo, de fazer com que desapareça em um abrir e fechar de olhos. Porém, se Abel desaparecer, também desaparece a fraternidade: Caim voltará a estar só, dono indiscutível do espaço vital, ao mesmo tempo, errante e fugitivo, longe de seus pais, de sua família, de Deus.

E aqui chega a reação de Caim diante do progresso de seu irmão aos olhos de Deus: se trata, antes de tudo, de uma reação de inveja. No termo “inveja” se encontra a raiz latina “vedere”, “ver”. Caim é aquele que começa a ver e a enxergar as coisas e as pessoas de um modo equivocado, com um olhar doente, turvo, malvado. Há quem se pergunte se realmente Deus não olhou com bons olhos o sacrifício de Caim, ou foi o próprio Caim que teve sobre si, um olhar maldoso, que não era mais que um reflexo de seu próprio olhar.

Garota sem foco numa floresta

pixabay/stocksnap. Caim enxerga as coisas de modo equivocado.

Caim vê o olhar de Deus à imagem e semelhança de si próprio e, deste modo, inverte a ordem natural da criação, segundo o qual é o homem que é criado a imagem e semelhança de Deus e não o contrário. Caim olha a Deus da mesma maneira com que está acostumado a olhar qualquer coisa: por conseguinte, se sente diminuído, desapontado, ofuscado, incompreendido.

Parecidos com a inveja, são os ciúmes; tampouco este sentimento deve ser estranho a Caim, até o ponto de que o texto original hebraico também poderia traduzir como “isto queimou a Caim”. De sempre, os ciúmes constituem um sentimento – junto com a ira – muito próximo ao fogo por sua intensidade e por sua força. É um sentimento que consome, que queima, que o devora inteiro, que não deixa nada intacto. Caim sente dentro um fogo que não lhe deixa tranquilo e que o consome mais e mais, cada instante, suas forças e sua paciência. Este fogo é também um instinto que o domina e o submete. Porém, Caim não é capaz, está à mercê de seus sentimentos, de suas paixões. A inveja, os ciúmes, a ira, são capazes de tomar posse da existência de um homem, o desnorteia, o transtornam, o levam à ruína.

O Gênesis, falando do fogo que devora Caim, diz que seu rosto estava “abatido”. Também neste caso nos ajudam os exegetas indicando uma possível tradução literal perfeitamente válida: no lugar de por que estás com rosto abatido? Propõe lermos por quê estás com a cabeça baixa? ou por que andas de cabeça para baixo?

Esta tradução teria o mérito de aludir algo sobre a frustração e depressão de Caim. Estar de cabeça para baixo, implica adotar uma posição antinatural (o sangue se concentra na cabeça: aqui estão de novo os ciúmes e a ira!); é uma postura onde não se sobrevive por muito tempo, uma atitude desordenada que inverte o equilíbrio normal e que leva a ver as coisas ao inverso. Caim virou as costas para qualquer pensamento sábio sobre a vida e, desde esse instante, não pode senão gerar consequências negativas de qualquer palavra que pronuncia ou de qualquer decisão que tome. Vive invertido, à margem de toda a lógica de modo contranatural, com suas dinâmicas e equilíbrio normais transtornados. Estar de cabeça para baixo o leva a perder a capacidade de contemplar horizontes mais amplos, mais abertos, restringe seu olhar, o leva longe do Céu, o impede de mover-se, caminhar. Com a cabeça para baixo não se pode chegar muito longe.

O que Caim necessita é da possibilidade de levantar o olhar, de respirar normalmente, de ver as coisas do lado bom, com a luz adequada; necessita sair da posição de inveja que inverteu a sua lógica e todo o equilíbrio.

(trecho retirado do livro: Mendigos de Dios, Itinerarios bíblicos – Davide Caldirola, Paulinas-Espanha)

 

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