Caim e Abel: a dificuldade de viver como irmãos

Passado algum tempo, ofereceu Caim frutos da terra em oblação ao Senhor. Abel, de seu lado, ofereceu dos primogênitos do seu rebanho e das gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido. O Senhor disse-lhe: “Por que estás irado? E por que está abatido o teu semblante? Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se precederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo.” Caim disse então a Abel, seu irmão: “Vamos ao campo.” Logo que chegaram ao campo, Caim atirou-se sobre seu irmão e matou-o. O senhor disse a Caim: “Onde está seu irmão Abel?” (Gn 4, 3-9)

Caim e Abel é o primeiro, de uma série de episódios das Escrituras que põe às claras, a dificuldade que é viver entre irmãos. Desde o princípio, a fraternidade é uma realidade ferida, um dom frágil e ameaçado. Caim mata seu irmão Abel, Jacó rouba a primogenitura de Esaú. Os irmãos de José o vendem como escravo pensando em acabar com ele. O livro do Gênesis nos conta histórias familiares obscuras, com tons sombrios, distantes de todo o ideal e qualquer discurso sobre a família que muitos propagam por aí.

Podemos dizer que estas histórias diferem bastante de qualquer anúncio de televisão onde, se apresentam famílias perfeitas e felizes, aquelas onde tudo funciona maravilhosamente e pais e filhos se amam e sorriem sempre. A vida nos põe diante de relações familiares que se rompem e se deterioram, histórias de vínculos fraternos que saltam pelos ares, no choque com as duras circunstâncias da vida, ou simplesmente, por questões relacionadas com interesses econômicos, por mal-entendidos e discussões, isto, –  como dizem –  “acontece nas melhores famílias”.

Não se pode generalizar – nem para o bem, nem para o mal – mas continua valendo o que diz a Escritura e a vida: as relações e os vínculos – não só familiares, também os de amizade e qualquer outro – constituem nossa grande oportunidade e, ao mesmo tempo, nosso maior tormento; assinalam os momentos mais intensos da existência e também, os mais difíceis e dolorosos: abrem um espaço de felicidade, extraordinariamente rico, porém profundos túneis de dor e sofrimento.

Em todo caso ninguém é uma ilha: não se pode viver sem relações. Assim pois, vale a pena que adentremos neste primeiro relato da Escritura, que nos apresenta uma relação entre irmãos. Os estudiosos na Bíblia, assinalam que este texto, pertence aos chamados “relatos das origens”, quer dizer, histórias que nos apresentam protótipos, arquétipos ou, simplesmente modelos, ou filtros através dos quais se faz uma leitura de todas as histórias posteriores.

Dito de outro modo, se se quer entender algo de complexo das relações humanas, tal como nos apresenta a Escritura, não se pode ignorar um texto como este, com toda a dureza e carga dramática que contém.

Não se trata de um texto pessimista, mas sim, realista. E quando nos recorda que “o pecado está à porta de tua casa (a casa de Caim)” nos diz de estarmos atentos e em guarda: qualquer relação com os outros vai estar sempre marcada por um sofrimento; o mal e o pecado vão tentar abrir espaços em nós cada vez que alguém vem ao nosso encontro ou cruza conosco ao longo do caminho.

O menor

Cena de Caim matando Abel

imagem: vicentemaneta/ Cena da violenta morte de Abel pelas mãos de seu irmão Caim.

Há um dado que nos chama em seguida a atenção: Deus mostra preferências, Deus opta por Abel. Se se vê bem, é um fato escandaloso. Não deveria Deus garantir a imparcialidade, tratando todos por igual? Acaso não são todos seus filhos, suas criaturas? E sem embaraço, não há erro no texto: “O Senhor viu compadecido a Abel e sua oferta, porém, viu com desagrado a Caim e sua oferenda”. De nada serve enumerar as hipóteses que, estudiosos de todos os tempos, elaboraram acerca da preferência divina. Ficamos com uma que, de certo modo, resume boa parte das demais: Deus prefere Abel porque ele é o menor.

Abel é o menor, o irmão pequeno, o mais frágil, é o que não recebe a primogenitura. O seu nome mesmo, nos sugere o nada, o vazio: sua raiz hebréia é a mesma que indica o vazio, o sopro, o nada, a “vaidade” de que nos fala o livro de Qohélet. Na Bíblia, o nome define a realidade mais íntima de uma pessoa; no caso de Abel é isto o que sucede: passa num sopro, sem dizer nada, sem tomar nunca a palavra. Em toda a Bíblia sua aparição é realmente fugaz, é consumido em poucas linhas como a vida de qualquer ser humano em relação com o largo curso da história.

Recordemos as palavras do Salmo 90 (89), 3-6:

“Reduzis o homem à poeira, e dizeis: Filhos dos homens, retornai ao pó, porque mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou, como uma só vigília da noite. Vós os arrebatais: eles são como um sonho da manhã, como a erva do campo, que viceja e floresce de manhã, mas que à tarde é cortada e seca.”

Os dias de Abel são menos que 70 anos. Passam muito rápido, desaparecem aparentemente sem deixar rastro – uma vez mais nos encontramos diante de um dos grandes paradoxos da Bíblia – seu nome se recordará para sempre, se converte em símbolo da fragilidade da vida, representa qualquer ser humano que padece violência; se converte em símbolo de tantos que são perseguidos injustamente, de quantos morrem injustamente.

Assim pois, Deus elege Abel por causa de sua fragilidade, de sua evanescencia, de sua condição de menor. Ele se volta para o pequeno, indefeso, vítima de seu irmão maior que, levanta suas fortes e poderosas mãos contra ele.

Então, o que se passa com Caim? Que culpa tem ele de haver nascido primeiro, de ser o maior? É justo que Deus o ignore só por que “é mais homem”, porque é mais forte, maior que seu irmão? O texto do Gênesis também nos reserva uma surpresa a este respeito. É que Deus, recebe com agrado a oferta de Abel, o menor, porém, também é certo que, ao longo de toda a história, só presta atenção em Caim, só dialoga com ele.

Abel – como já indicado – não abre os lábios em todo o relato; e tampouco Deus lhe dirige a palavra. Quando fala, o faz somente com Caim: desenvolve um diálogo só com ele; só trata de corrigir a ele; é a ele a quem reprova; a ele a quem promete a salvação no final da narração: “O Senhor pôs um sinal em Caim, para que, se alguém o encontrar, não o mate”. Quando – por sua parte – Caim se converte no “menor” (porque Abel é o preferido e Caim é o pecador), se encontra automaticamente no centro da atenção de Deus.

Percebemos que, mais que da relação fraterna, este texto fala dos incessantes esforços de Deus por atender sempre o menor, ao pequeno, ao mais pobre, ao que caiu. Tanto Abel como Caim são preferidos de Deus, ainda que de maneira distinta: a preferência por Abel se deve ao seu ser nada, um sopro; Caim por estar atrás na consideração com respeito a seu irmão menor.

(trecho retirado do livro: Mendigos de Dios, Itinerarios bíblicos – Davide Caldirola, Paulinas-Espanha)

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